Cuba vive colapso do sistema de racionamento e expõe crise estrutural da economia

Destaques Economia

Escassez de alimentos, inflação e perda de poder de compra colocam população em situação crítica

A histórica “libreta” — caderneta de racionamento criada nos anos 1960 pelo governo cubano — deixou de cumprir sua principal função: garantir o mínimo de alimentação para a população. Hoje, ela simboliza o colapso de um modelo econômico sob pressão crescente.

Reportagem recente da Associated Press mostra que o sistema, que já sustentou gerações, agora entrega quantidades mínimas — e, muitas vezes, nem isso.

De garantia alimentar a símbolo da escassez
Durante décadas, a libreta assegurava itens essenciais como arroz, leite, carnes e até produtos de higiene. Hoje, o cenário é radicalmente diferente:
Prateleiras vazias em lojas estatais, distribuição irregular de alimentos básicos, redução drástica do volume e variedade de produtos.

Em muitos casos, os cidadãos recebem apenas pequenas quantidades de arroz, açúcar ou leguminosas — quando há disponibilidade.

O impacto direto é brutal: famílias estão reduzindo refeições ou sobrevivendo com dietas extremamente limitadas.

Salários baixos vs. economia dolarizada

O problema não é apenas a escassez — é também o acesso.
-Salários médios mensais: entre US$ 8 e US$ 16
-Crescente dolarização de produtos no mercado
-Impossibilidade de comprar fora do sistema estatal

Ou seja, mesmo quando há oferta no mercado paralelo, grande parte da população simplesmente não tem poder de compra.

Esse descompasso cria um cenário clássico de colapso de consumo interno.

O que está por trás da crise
A deterioração do sistema cubano não é pontual — é estrutural. Entre os principais fatores:

  1. Dependência externa crítica
    Cuba importa cerca de 80% dos alimentos que consome, tornando-se altamente vulnerável a crises cambiais e logísticas.
  2. Erros de política econômica
    A unificação monetária em 2021 gerou:
    Inflação persistente
    Perda de poder de compra
    Desorganização do sistema produtivo
  3. Déficit fiscal elevado
    O Estado gasta mais do que arrecada, mantendo:
    4.Subsídios insustentáveis
    Forte pressão sobre emissão de moeda
    Crise energética e logística

Falta de combustível, apagões e gargalos de distribuição impactam diretamente a cadeia de abastecimento.

Mudança de estratégia: do subsídio ao produto para o subsídio à pessoa

Diante da incapacidade de manter o modelo atual, o governo cubano estuda uma transição:
Reduzir subsídios diretos a produtos, focar em auxílio financeiro à população mais vulnerável

Na prática, isso representa uma tentativa de modernização do sistema — mas com alto risco social no curto prazo.

A crise cubana oferece sinais importantes para mercados emergentes:

  1. Fragilidade de economias altamente centralizadas
    Modelos com forte controle estatal tendem a perder eficiência em cenários de choque externo.
  2. Risco da dependência de importação
    Segurança alimentar se torna um ativo estratégico nacional.
  3. Inflação + baixa renda = colapso do consumo
    Sem renda disponível, não há mercado — mesmo que haja oferta.
  4. Transição de subsídios exige timing preciso
    Mudanças abruptas em políticas sociais podem ampliar desigualdades e instabilidade.

Impactos além de Cuba
A crise já gera reflexos regionais e globais:

Aumento da migração cubana
-Pressão sobre sistemas sociais de outros países
-Redução do fluxo turístico
-Risco de instabilidade política

A “libreta” deixou de ser uma solução e passou a ser um sintoma.

O que está em jogo não é apenas o abastecimento de alimentos — é a sustentabilidade de um modelo econômico inteiro. Sem reformas estruturais profundas, Cuba tende a enfrentar um cenário ainda mais crítico nos próximos anos, com impactos sociais e econômicos de larga escala.