A inadimplência no Brasil atingiu o maior nível em mais de 15 anos, refletindo a crescente dificuldade de pessoas físicas e jurídicas em honrar seus compromissos financeiros. Essa situação está provocando uma mudança significativa na forma como os bancos emprestam dinheiro, que agora estão se voltando para segmentos mais seguros.
Um levantamento realizado pela XP indica que o maior risco de calote está concentrado entre consumidores e produtores rurais. Como resultado, as principais instituições financeiras do país estão redirecionando suas operações, buscando proteger suas rentabilidades e minimizar perdas.
Essa mudança de estratégia é evidente nos resultados do segundo trimestre dos seis maiores bancos do Brasil: Itaú, Banco do Brasil, Caixa, Bradesco, Santander e BTG Pactual. Juntas, essas instituições representam cerca de 72% do crédito do Sistema Financeiro Nacional, oferecendo uma visão clara sobre a dinâmica do mercado financeiro atual.
Quem deve mais
Embora os números do sistema financeiro possam parecer positivos à primeira vista, com um estoque total de crédito alcançando R$ 7 trilhões em junho e um crescimento de 9,69% em 12 meses, a realidade é mais complexa. Esse crescimento vem acompanhado de uma deterioração consistente na qualidade das carteiras dos bancos.
A inadimplência acima de 90 dias — um indicador crucial para o crédito — subiu de 3,75% para 4,58% entre junho de 2025 e junho de 2026. Em julho, esse número atingiu 4,88%, o maior patamar desde o início da série histórica do Banco Central, em 2011.
Isso significa que quase R$ 336,8 bilhões em contas estavam com atraso superior a 90 dias ao final do primeiro semestre, de acordo com o levantamento da XP. A inadimplência da pessoa física é a principal responsável por esse aumento, com atrasos acima de 90 dias alcançando 5,42%, em comparação a 3,19% nas operações destinadas às empresas.
Consequentemente, os bancos estão restringindo o crédito às famílias, concentrando suas operações em grandes empresas que podem oferecer garantias nas negociações.
Quem consegue dinheiro
Os bancos Itaú e Bradesco, por exemplo, registraram um crescimento nas carteiras corporativas que superou o observado no varejo. No Itaú, a carteira para pessoas jurídicas cresceu 10,8%, em comparação a 7,8% entre pessoas físicas. No Bradesco, a diferença foi ainda mais acentuada, com uma alta de 14,1% para empresas e de 8,4% para famílias.
Essa preferência por operações com menor risco é evidente nas linhas de crédito oferecidas. O Bradesco, por exemplo, viu um aumento nas linhas garantidas e financiamentos corporativos, com a participação de operações com garantia chegando a 61% da carteira.
A XP prevê que essa tendência deve se manter, com os bancos direcionando capital para empresas com melhor capacidade de pagamento, mesmo que isso signifique uma rentabilidade total mais moderada.
O agro na contramão
Uma exceção a essa tendência é o agronegócio, que enfrenta uma situação crítica. A inadimplência dos produtores rurais mais que dobrou em um ano, passando de 3,55% para 7,48% em junho e alcançando 8,79% em julho, o maior nível desde 2011.
Essa deterioração se deve a uma combinação de fatores, incluindo a queda nos preços das commodities, aumento dos custos de produção e um crescimento nos pedidos de recuperação judicial entre os produtores. Apesar das expectativas de melhora nas próximas safras, a XP acredita que os efeitos da crise continuarão a impactar os balanços dos bancos nos próximos trimestres.
A situação é especialmente preocupante para o Banco do Brasil, que concentra mais de R$ 421,55 bilhões em crédito ao agronegócio, representando mais de 60% da carteira agro do país.
Destaques dos principais bancos
Itaú (ITUB4)
O Itaú se destaca por equilibrar a expansão da carteira com a qualidade do crédito. Seu volume de empréstimos cresceu 9,6% em 12 meses, sem sinais relevantes de deterioração nos indicadores de inadimplência, que permanece em 1,9%, a menor entre os grandes bancos analisados.
Banco do Brasil (BBAS3)
O Banco do Brasil enfrenta desafios significativos, com um crescimento da carteira de crédito de apenas 1,5% em um ano, bem abaixo da média do mercado. A pressão sobre o banco é acentuada pela deterioração da carteira rural, refletindo-se em provisões crescentes e um retorno sobre patrimônio de apenas 8,3%, o menor entre os bancos privados.
BTG Pactual (BPAC11)
O BTG Pactual foi a instituição que mais expandiu sua carteira de crédito, com um crescimento de 24% em 12 meses, concentrando-se em empréstimos corporativos e crédito pessoal. Sua diversificação de receitas, que inclui banco de investimento e atividades de mercado de capitais, contribui para um retorno sobre patrimônio de 26,7%, o maior entre os bancos analisados.
Bradesco (BBDC4)
O Bradesco também apresentou um crescimento significativo, com uma expansão de 11,6% da carteira, impulsionada principalmente por operações corporativas. Apesar do aumento nas provisões, o banco foi o único a mostrar uma leve melhora no indicador de inadimplência.
Santander (SANB11)
O Santander exemplifica a mudança de estratégia do setor, com um crescimento total da carteira de apenas 5,8% e estagnação no crédito para pessoa física. A instituição registrou um aumento significativo no crédito para empresas, mas ainda assim enfrentou pressão sobre os resultados, sendo o único banco do grupo a reportar queda de lucro na comparação anual.
Com a inadimplência em alta e o agronegócio sob pressão, os bancos estão se adaptando a um novo cenário, priorizando segmentos mais seguros em busca de rentabilidade. Acompanhe o NOME_DO_SITE para mais informações sobre as tendências do mercado financeiro e suas implicações.
Fonte: seudinheiro.com
