Incerteza jurídica trava associações de cannabis medicinal no Brasil

Incerteza jurídica trava associações de cannabis medicinal no Brasil

Saúde

O cenário da cannabis medicinal no Brasil vive um momento de contradição. Enquanto avanços regulatórios são celebrados por pacientes e especialistas, as associações que garantem o acesso ao tratamento enfrentam um vácuo normativo que gera insegurança jurídica e riscos operacionais. O debate ganhou força durante a 2ª edição da feira Febre de Arte, realizada em Fortaleza, onde representantes do setor apontaram que, apesar das novas resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a realidade cotidiana das entidades ainda é marcada pela ameaça de apreensões e pela falta de diretrizes práticas.

O abismo entre a norma e a fiscalização

A promulgação da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 1.014, em janeiro de 2026, deveria ter trazido clareza ao setor. No entanto, na visão de gestores de associações, o texto deixou lacunas críticas sobre o cultivo, o controle sanitário e o papel da agricultura familiar. Maurício Gomes, diretor jurídico da Associação Canábica Florescer (Acaflor), resume o sentimento de vulnerabilidade: “Quem está batendo na nossa porta não é a vigilância sanitária, é a polícia”.

Essa percepção é compartilhada por agentes públicos que tentam mediar o processo. Antônio Carlos Araújo Fraga, técnico da vigilância sanitária do Ceará, reconhece a dificuldade de seus pares em atuar sem subsídios claros. Para ele, o “jogo de empurra-empurra” entre instâncias governamentais impede que a fiscalização seja feita de forma técnica e segura, deixando as associações em uma espécie de limbo jurídico, onde a conformidade é exigida, mas os caminhos para alcançá-la permanecem nebulosos.

Desafios no cultivo e na produção

Um dos pontos mais sensíveis do debate envolve a dificuldade das autoridades em criar normas que abranjam a diversidade do universo canábico, indo além da lógica industrial. Atualmente, o Brasil contabiliza 315 associações em atividade, conforme dados do Anuário de Cannabis Medicinal 2025, da Kaya Mind. Muitas dessas entidades atuam na fronteira da pesquisa e do suporte a pacientes com condições graves, como fibromialgia e lúpus.

A farmacêutica Akemy Viana Pinheiro, colaboradora da Acura, defende que a solução passa por uma maior integração entre profissionais técnicos, como farmacêuticos e agrônomos, para garantir padrões de qualidade. Segundo ela, o setor não busca evitar o monitoramento, mas sim estabelecer critérios que permitam a operação regular, alinhada a resoluções como a nº 7/2026, do Conselho Federal de Farmácia, que orienta a atuação técnica na cadeia produtiva.

O impacto do marco regulatório da Anvisa

A Anvisa sustenta que o processo de elaboração das normas foi participativo, citando 29 consultas com associações e a análise de dezenas de trabalhos científicos. O novo ciclo regulatório, composto pelas RDCs 1.013, 1.014 e 1.015, tenta estruturar desde o controle de THC — com exigências específicas para importação de insumos — até a criação de um “Sandbox Regulatório” para testagem controlada. Contudo, a comunidade científica e as associações questionam os critérios de seleção e a aplicabilidade dessas medidas em larga escala.

Enquanto o impasse persiste, cerca de 873 mil pacientes no Brasil dependem da continuidade dessas iniciativas para manter seus tratamentos. O desafio para os próximos meses será transformar o arcabouço legal em diretrizes exequíveis, que protejam tanto o direito à saúde quanto a segurança jurídica de quem produz o insumo essencial para milhares de famílias.

O ConexRS segue acompanhando os desdobramentos da regulamentação da cannabis medicinal e o impacto dessas decisões na vida dos pacientes brasileiros. Continue conosco para se manter informado sobre temas que unem ciência, política e direitos fundamentais com a profundidade que você exige.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br