O setor de infraestrutura no Brasil volta suas atenções para o dia 29 de setembro, data agendada para o leilão de saneamento em Rondônia. O certame é visto por analistas como um divisor de águas para medir o apetite dos investidores em um momento de maturação do mercado, marcado por resultados recentes abaixo das expectativas em licitações de água e esgoto pelo país.
A atratividade do modelo de concessão plena
O Governo de Rondônia coloca em disputa a concessão dos serviços de água e esgoto em 40 municípios, incluindo a capital, Porto Velho. O contrato, com duração prevista de 35 anos, está avaliado em R$ 8,47 bilhões, com um preço mínimo de R$ 567 milhões fixado como bônus de outorga. Diferente de Parcerias Público-Privadas (PPPs) ou concessões parciais, o modelo adotado em Rondônia é de concessão plena, o que, segundo especialistas, reduz incertezas operacionais e aumenta a atratividade para grandes grupos privados.
O histórico recente de licitações no setor tem sido de cautela. Em julho, o Governo do Ceará recebeu apenas uma proposta para um projeto de esgoto. Situação semelhante ocorreu na Paraíba, em maio, com um lance único da Acciona, e em Goiás, onde uma licitação foi cancelada por falta de interessados. Para José Braga, consultor e ex-CEO de subsidiárias da Aegea, o mercado mudou: “As grandes empresas estão maduras e não buscam mais apenas portfólio. Elas querem o melhor retorno sobre o capital investido”.
O papel estratégico da Aegea no cenário nacional
Um dos pontos de maior curiosidade do mercado é a postura da Aegea. A companhia, controlada por Itaúsa, Equipav e GIC, consolidou-se como uma gigante do setor, participando de 36 dos 66 leilões realizados desde 2019. Como a empresa já opera em cinco municípios rondonienses, sua participação seria um movimento natural. Contudo, o cenário financeiro da companhia impõe cautela. Recentemente, a empresa anunciou uma capitalização de até R$ 2,1 bilhões para reforçar sua estrutura e reduzir o endividamento, sinalizando que o foco atual não é a expansão agressiva via novos leilões.
Desafios e o futuro das licitações de saneamento
O sucesso do leilão de Rondônia pode ditar o ritmo para os próximos projetos, como o programa Universaliza São Paulo e a PPP do Rio Grande do Norte. Gustavo Gusmão, sócio da EY-Parthenon, projeta que o certame deve atrair entre dois a três competidores. “Não vemos um processo com cinco ou seis players, mas há capacidade de atrair interessados. É um momento de ajuste de expectativas”, avalia.
O desafio para o poder público será adaptar as modelagens para cidades menores, que possuem menor escala e maior complexidade operacional. A tendência é que projetos futuros incluam subsídios estatais ou contrapartidas mais robustas, superando a fase em que apenas os grandes centros, considerados o “filé mignon” do setor, despertavam interesse imediato. O mercado segue atento, aguardando se o leilão de Rondônia será o sinal de que o setor encontrou um novo equilíbrio.
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Fonte: braziljournal.com
