Moody's aponta caminho para Brasil recuperar grau de investimento e alerta sobre riscos fiscais

Moody’s aponta caminho para Brasil recuperar grau de investimento e alerta sobre riscos fiscais

DESTAQUES Economia

O cenário econômico brasileiro permanece sob monitoramento rigoroso das grandes agências de classificação de risco globais. William Foster, vice-presidente da Moody’s Ratings e responsável pela análise soberana do Brasil, reforçou recentemente que a trajetória de crédito do país depende de ajustes estruturais profundos. Durante o evento “Inside LatAm: Brasil 2026”, o executivo destacou que, para almejar o retorno ao cobiçado grau de investimento, o próximo governo precisará implementar um ajuste fiscal estimado entre 2% e 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB).

Atualmente, o Brasil ostenta a nota Ba1, um degrau abaixo do patamar de investimento, com perspectiva positiva. Embora o país tenha registrado avanços significativos com reformas estruturais em anos anteriores — como a autonomia do Banco Central e marcos regulatórios de saneamento —, a estagnação recente nas medidas de consolidação fiscal acende um alerta para investidores internacionais.

O desafio fiscal e a rigidez orçamentária

A avaliação da Moody’s é clara: o elo mais frágil da economia brasileira é o seu perfil fiscal. Enquanto a nota soberana do país é Ba1, o perfil isolado das contas públicas é classificado como B1, três degraus abaixo. Foster aponta que o Brasil enfrenta um dos orçamentos mais rígidos da América Latina, com cerca de 95% dos gastos vinculados a despesas obrigatórias, como Previdência e programas sociais.

Essa rigidez cria um efeito cascata perigoso. Como grande parte do orçamento é indexada à inflação, qualquer correção nos pagamentos pressiona os preços na economia e limita a margem de manobra do governo. Além disso, o Brasil possui uma característica peculiar que amplia sua vulnerabilidade: cerca de 50% da dívida pública está atrelada à taxa Selic. Em ciclos de juros elevados, como o atual, o custo de rolagem dessa dívida consome recursos preciosos, elevando o déficit financeiro.

Caminhos para a credibilidade institucional

Para reverter esse quadro e alcançar o grau de investimento, a agência aponta gatilhos específicos. O principal deles é a redução da indexação dos gastos obrigatórios. Outro ponto de atenção é o controle sobre o avanço das emendas parlamentares, que passaram de 2% para 24% do orçamento discricionário desde 2015, reduzindo a flexibilidade da gestão pública.

A redução sustentada das taxas de juros reais é vista como o motor de um possível “ciclo virtuoso”. Segundo Foster, reformas macroeconômicas que melhorem a transmissão da política monetária permitiriam juros menores sem inflação, reduzindo o custo de capital para o setor privado e impulsionando investimentos na economia real. Sem essas mudanças, a projeção da Moody’s é preocupante: a relação dívida/PIB pode saltar dos atuais 80% para 90% até 2030.

Riscos de retrocesso e potencial de crescimento

Apesar dos desafios, o Brasil mantém vantagens competitivas globais, especialmente na transição energética, com potencial em minerais críticos e energia limpa. A implementação do IVA, através da reforma tributária, também é vista como um fator de eficiência econômica. No entanto, o risco de downgrade permanece presente caso a trajetória da dívida continue ascendente.

A deterioração da acessibilidade da dívida, onde o pagamento de juros consome 20% da receita governamental — contra uma média de 14% de seus pares —, é um indicador que a agência observa com cautela. O sucesso ou fracasso nessa empreitada dependerá da capacidade política de priorizar a consolidação fiscal a longo prazo após o ciclo eleitoral.

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Fonte: seudinheiro.com