Brasil busca soberania digital em meio à disputa global por inteligência artificial

Brasil busca soberania digital em meio à disputa global por inteligência artificial

Mundo

A nova fronteira da cooperação tecnológica

O cenário geopolítico da tecnologia acaba de ganhar um novo capítulo com a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), oficializada em julho de 2026, em Xangai. O Brasil figura entre os 29 países signatários do acordo, que propõe uma governança global baseada em modelos de código aberto. A iniciativa chinesa busca democratizar o acesso à tecnologia, permitindo que organizações e empresas de diversas nações possam adaptar e utilizar os sistemas conforme suas necessidades locais.

Essa movimentação coloca o país em um tabuleiro complexo. Enquanto a China aposta em uma estrutura colaborativa, os Estados Unidos avançam com a Pax Silica, um projeto que prioriza o alinhamento com aliados estratégicos para controlar cadeias de suprimentos vitais, como semicondutores, minerais críticos e a infraestrutura de energia necessária para sustentar o processamento de dados em larga escala.

O desafio da infraestrutura nacional

Especialistas apontam que a adesão à Waico é uma oportunidade estratégica, mas que exige um esforço interno robusto. Segundo Sérgio Amadeu da Silveira, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), a simples participação em blocos internacionais não garante autonomia. Para o sociólogo, o Brasil possui um ecossistema de pesquisa acadêmica invejável, mas carece de uma infraestrutura própria que evite a dependência excessiva de big techs estrangeiras.

O gargalo é financeiro e operacional. Atualmente, grande parte dos recursos destinados à pesquisa em IA é drenada para o pagamento de serviços de armazenamento em nuvem de gigantes globais. Sem a criação de centros de processamento de dados nacionais, o país corre o risco de atuar apenas como um consumidor de tecnologia alheia, em vez de um desenvolvedor de soluções soberanas que atendam às demandas da população brasileira.

Geopolítica e o papel do Brasil

A posição oficial do governo brasileiro tem sido de cautela e busca por equilíbrio. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido, em fóruns internacionais, que a inteligência artificial não deve ser um instrumento de poder concentrado nas mãos de poucos países ou conglomerados econômicos. A visão brasileira reforça a necessidade de uma governança intergovernamental, onde nações em desenvolvimento tenham voz ativa nas decisões que moldarão o futuro do trabalho, da economia e da segurança pública.

Para Ettore Arpini, especialista em governança de IA e fundador da organização Plures, o Brasil tem uma vantagem competitiva única: a capacidade de transitar entre as diferentes esferas de influência. Arpini defende que a tecnologia deve ser tratada como uma alavanca de prosperidade nacional, ultrapassando a visão de um setor isolado para se tornar um pilar de desenvolvimento econômico e geopolítico.

Visões divergentes sobre o futuro

O embate entre a proposta da ONU, apoiada por países como o Brasil, e a visão norte-americana é profundo. Enquanto o governo brasileiro busca a soberania digital, o subsecretário de Estado dos EUA, Jacob Helberg, critica a ideia de que cada nação deva construir sua própria infraestrutura. Para o representante americano, a tentativa de descentralização pode levar a uma “mediocridade sincronizada”, argumentando que a inovação real continuará sendo impulsionada pelas empresas privadas dos Estados Unidos.

O debate está longe de uma conclusão, mas a urgência é clara. Como destacou o secretário-geral da ONU, António Guterres, a IA representa a maior oportunidade do século 21, mas exige que o futuro seja moldado por toda a humanidade, e não apenas por um grupo restrito de atores. Para acompanhar os próximos desdobramentos dessa disputa tecnológica e como ela impacta a economia brasileira, continue conectado ao Conexrs. Nosso compromisso é levar até você uma análise profunda, atualizada e imparcial dos temas que definem o nosso tempo.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br