Privatizações em São Paulo sob análise: os desafios da gestão Tarcísio

Privatizações em São Paulo sob análise: os desafios da gestão Tarcísio

Política

A gestão das concessões públicas em São Paulo voltou ao centro do debate político após recentes episódios de instabilidade em serviços essenciais. O governador Tarcísio de Freitas, que tem na agenda de privatizações um dos pilares de sua administração, enfrenta críticas crescentes sobre a eficiência e o planejamento de projetos que visam transferir ativos estatais para a iniciativa privada. O cenário coloca em xeque a eficácia de um modelo que, embora defendido como solução para a modernização, tem apresentado falhas operacionais significativas.

O impacto das concessões no setor ferroviário

O setor de transportes sobre trilhos tem sido o epicentro das tensões. A concessão das linhas 11-coral, 12-safira e 13-jade da CPTM à empresa Trivia Trens, formalizada no final de junho, tornou-se um exemplo emblemático das dificuldades enfrentadas pelo governo. Após falhas operacionais graves, incluindo um incêndio na linha 12, o governo estadual optou pela suspensão temporária da concessão por 90 dias, retomando o controle estatal dos ramais.

Este movimento é visto por especialistas como um revés na estratégia de desestatização. O histórico recente do estado, que já enfrentava questionamentos sobre o desempenho da ViaMobilidade nas linhas 8 e 9 — concedidas ainda na gestão de João Doria, em 2021 —, reforça a percepção de que a transição para a gestão privada exige um rigor técnico que, segundo críticos, tem sido negligenciado em prol de metas políticas aceleradas.

Gestão de parques e a crítica à mercantilização

Além dos transportes, a política de concessões de parques estaduais também gera controvérsias. O que foi apresentado como uma alternativa para elevar a qualidade e a manutenção das áreas verdes tem sido alvo de denúncias sobre a descaracterização ambiental e a exploração comercial excessiva. Relatos de frequentadores apontam que a instalação de estruturas privadas, como praças de alimentação e áreas de eventos, muitas vezes ocorre em detrimento da infraestrutura básica de lazer.

No Parque Villa-Lobos, por exemplo, a presença de tapumes, áreas isoladas para eventos pagos e a degradação de pistas e mobiliário urbano ilustram o descompasso entre a promessa de melhoria e a experiência cotidiana dos usuários. A crítica central recai sobre a falta de uma curadoria inteligente, que priorize o bem-estar público em vez da simples exploração de receitas por parte das concessionárias.

O dogma liberal em xeque

O debate sobre privatizações não é novo, mas ganha contornos específicos na atual conjuntura paulista. Enquanto o liberalismo econômico defende a eficiência do setor privado, a realidade observada em São Paulo sugere que a ausência de um planejamento estruturado pode resultar em prejuízos ao cidadão. O pragmatismo, que em outros momentos históricos justificou a transição de serviços como telefonia e rodovias, parece encontrar limites quando a execução falha em garantir a qualidade mínima do serviço prestado.

A discussão, portanto, transcende a ideologia e toca na capacidade técnica do Estado em fiscalizar e regular os contratos firmados. O futuro das concessões em São Paulo dependerá, em grande medida, da capacidade do governo em corrigir os rumos e assegurar que o interesse público prevaleça sobre a pressa em entregar ativos ao mercado.

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Fonte: redir.folha.com.br