Pressão popular e memória das Malvinas forçam Milei a recuar sobre venda de terras

Pressão popular e memória das Malvinas forçam Milei a recuar sobre venda de terras

Mundo

A soberania como barreira ao projeto governista

A tentativa do governo de Javier Milei de ampliar a venda de terras argentinas para investidores estrangeiros sofreu um revés significativo nesta semana. Diante de uma mobilização nacional que uniu setores diversos da sociedade, o Executivo optou por retirar o projeto de pauta no Senado, que seria votado nesta quinta-feira (6). A proposta, que gerou intensos debates, esbarrou em um sentimento histórico profundo: a defesa da soberania nacional, simbolizada pela memória da Guerra das Malvinas.

O projeto, apelidado pejorativamente de “estrangeirização das terras”, pretendia elevar de 15% para 25% o limite de solo nacional que poderia ser adquirido por capitais estrangeiros em cada província. A medida é vista pela Casa Rosada como um passo necessário para destravar investimentos internacionais, mas encontrou resistência em um arco político e social que atravessa diferentes ideologias.

O peso da memória na mobilização social

A faísca que inflamou os protestos recentes teve um componente simbólico forte. Durante a semifinal da Copa do Mundo, em julho de 2026, jogadores da seleção argentina exibiram uma faixa com a frase “As Malvinas são argentinas” após a vitória contra a Inglaterra. O gesto, ocorrido na véspera da tentativa de votação no Senado, resgatou o trauma histórico do conflito bélico da década de 1980 e serviu de catalisador para a indignação popular.

O movimento ganhou corpo com o apoio de figuras públicas de grande alcance, como a cantora Lali Espósito e o zagueiro Lisandro Martinez, além de entidades como o Centro de Ex-combatentes das Ilhas Malvinas (Cecim La Plata). Para o professor de agronomia Hernán Hougassian, a frase dos atletas funcionou como um lembrete de que o território argentino não é uma mercadoria desvinculada da identidade nacional.

Federalização do descontentamento e racha político

A derrota do governo no Senado não foi apenas um reflexo da pressão das ruas, mas também de uma articulação política complexa. O cientista político Leandro Gabiati aponta que a insatisfação chegou aos governadores das províncias, que temiam perder o controle sobre seus territórios. Essa “federalização” da pauta pressionou senadores que, embora aliados ao governo em outras frentes, não sustentaram o apoio nesta matéria específica.

O racha chegou ao topo do Poder Executivo, com a vice-presidente Victoria Villarruel manifestando posições contrárias ao projeto. A falta de consenso na base aliada, somada ao custo político de avançar com uma medida impopular, forçou o governo a “reavaliar” a proposta. Oficialmente, o governo não admite o arquivamento definitivo, mantendo o tema em uma zona de incerteza legislativa.

Controvérsias sobre áreas protegidas

Embora o item sobre a estrangeirização tenha sido retirado, o governo Milei manteve a tramitação de outro ponto polêmico: a permissão para a venda de áreas protegidas que sofreram incêndios florestais. Críticos, como o ambientalista Hernán Hougassian, alertam que a medida pode incentivar a especulação imobiliária em zonas de preservação, permitindo que grandes proprietários lucrem após a destruição da vegetação nativa.

Atualmente, a legislação argentina, sancionada em 2020, proíbe por 30 anos a comercialização de áreas atingidas pelo fogo para evitar que incêndios criminosos sejam usados como artifício para mudar o uso do solo. O governo alega que tais prazos violam o direito à propriedade privada e não cumprem sua função ambiental, prometendo manter o embate legislativo em torno da chamada Lei de Inviolabilidade da Propriedade Privada.

O Conexrs segue acompanhando os desdobramentos da política argentina e os impactos das reformas de Milei na região. Continue conosco para se manter informado com análises aprofundadas e o contexto completo dos fatos que moldam o cenário internacional.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br