Enredo inspirado no Príncipe Custódio apresentou ao público nacional a força do Batuque, da ancestralidade africana e da resistência negra gaúcha
A história negra do Rio Grande do Sul ganhou projeção nacional no Carnaval de 2026 pelas mãos da Portela. Na madrugada de 16 de fevereiro, já no domingo de Carnaval, a escola de Oswaldo Cruz e Madureira entrou na Marquês de Sapucaí com o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, uma narrativa construída a partir da trajetória de Custódio Joaquim de Almeida e da formação da cultura afro-gaúcha.
Mais do que contar a história de uma personalidade, a Portela apresentou uma interpretação sobre a presença negra na formação do Rio Grande do Sul. O desfile abordou religiosidade, ancestralidade, resistência, Batuque, memória e personagens que durante muito tempo permaneceram fora das narrativas mais conhecidas sobre a identidade gaúcha. A proposta também buscou deslocar o centro da narrativa histórica sobre a população negra brasileira, tradicionalmente concentrada no eixo Rio-Bahia, para mostrar que o Sul também possui uma profunda história africana e afro-brasileira.
O Príncipe Custódio como ponto de partida
Custódio Joaquim de Almeida, conhecido como Príncipe Custódio, foi a figura central do enredo. De origem africana, ligada à região do antigo Daomé, atual Benim, ele se estabeleceu em Porto Alegre no século XIX e tornou-se uma importante liderança religiosa e social entre a população negra da capital gaúcha.
Sua trajetória, entretanto, ainda é cercada por lacunas e controvérsias históricas. O próprio Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul destaca que não há consenso absoluto sobre suas datas de nascimento e chegada ao Brasil ou mesmo sobre sua condição de príncipe. Documentos e pesquisas, porém, ajudam a reconstruir sua presença em Porto Alegre e sua importância como liderança religiosa, mediador político e personagem da história afro-gaúcha.
A Portela transformou essas lacunas em matéria-prima para uma narrativa carnavalesca que combinou história, memória, religiosidade e elementos do imaginário popular. O resultado foi uma viagem pela trajetória de Custódio e pelo desenvolvimento do Batuque, religião de matriz africana que possui características próprias no Rio Grande do Sul.
O Rio Grande negro que a escola apresentou ao Brasil
A pesquisa realizada pela equipe da Portela foi extensa. O material produzido para o enredo incluiu capítulos dedicados ao Príncipe Custódio, ao Bará, ao Negrinho do Pastoreio, à escravidão no Rio Grande do Sul, à formação da população negra, aos mercados públicos, ao Batuque, aos orixás e à trajetória das comunidades negras gaúchas.
A equipe realizou pesquisas de campo em diferentes regiões do Estado, visitando terreiros de Batuque, clubes negros, territórios de memória e locais relacionados à presença afro-gaúcha. O trabalho também contou com pesquisadores e especialistas, entre eles a historiadora Fernanda Oliveira, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O material oficial da pesquisa foi estruturado em 12 capítulos, demonstrando a dimensão histórica do projeto.
Essa investigação ajudou a escola a construir uma narrativa que fugiu da ideia de um Rio Grande do Sul exclusivamente associado à imigração europeia e às tradições brancas. O enredo mostrou que negros africanos e seus descendentes participaram ativamente da formação social, econômica, religiosa e cultural do Estado.
O 20 de Novembro nasceu aqui
Um dos capítulos mais importantes dessa história está diretamente relacionado a Porto Alegre.
Em 1971, um grupo de jovens negros criou o Grupo Palmares, organização que passou a discutir a história e a cultura da população negra e questionar a centralidade do 13 de Maio como símbolo da abolição.
Entre os participantes estava Antônio Carlos Côrtes, advogado, jornalista, escritor e ativista cultural que posteriormente se tornaria membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
O grupo passou a defender o 20 de Novembro, data associada à morte de Zumbi dos Palmares, como um marco de resistência e afirmação da população negra. A primeira celebração ocorreu em 20 de novembro de 1971, em Porto Alegre.
Décadas depois, a data tornou-se nacionalmente conhecida como Dia da Consciência Negra.
É justamente essa origem gaúcha que deu ao enredo da Portela uma dimensão particularmente importante para o Rio Grande do Sul. A escola não estava apenas apresentando personagens históricos. Estava levando para o maior palco do Carnaval brasileiro uma história que começou em Porto Alegre e que ajudou a transformar a forma como o Brasil passou a discutir a identidade e a resistência negra.
Antônio Carlos Côrtes: da criação do Grupo Palmares à Sapucaí
Antônio Carlos Côrtes ocupou um lugar especial nessa trajetória.
Participante do Grupo Palmares desde sua formação, Côrtes tornou-se uma das testemunhas vivas daquele movimento que ajudou a estabelecer o 20 de Novembro como data de referência para a população negra brasileira.
Sua trajetória, contudo, vai muito além do ativismo.
Advogado formado pela UFRGS, jornalista, escritor, radialista, professor e agente cultural, Côrtes construiu uma carreira ligada à comunicação e à cultura no Rio Grande do Sul. Também teve forte relação com o Carnaval de Porto Alegre, atuando durante décadas em veículos de comunicação como comentarista e profissional ligado à cobertura carnavalesca.
Em 2023, assumiu a cadeira nº 11 da Academia Rio-Grandense de Letras, consolidando também seu reconhecimento no campo literário.
A ligação com Viamão também faz parte dessa trajetória. Côrtes recebeu o título de Cidadão Viamonense, em reconhecimento à sua atuação e contribuição cultural. O município posteriormente reforçou essa relação ao escolhê-lo como patrono de sua Feira Literária.
O reconhecimento chegou à Portela
Durante o processo de pesquisa para o Carnaval de 2026, Antônio Carlos Côrtes foi ouvido pela equipe responsável pelo enredo da Portela. Sua presença tinha um significado especial: ele não estava apenas falando sobre um episódio histórico pesquisado em livros, mas sobre uma experiência da qual participou diretamente.
A história do Grupo Palmares, portanto, conectou diferentes gerações. De um lado, os jovens negros que, em Porto Alegre, na década de 1970, questionaram a forma como a abolição era celebrada. Do outro, uma escola de samba centenária apresentando essa história para o público nacional mais de cinco décadas depois.
Essa conexão também colocou Côrtes como uma das referências da representação negra rio-grandense associada ao projeto da Portela.
Lanceiros Negros e a memória da resistência
A construção dessa identidade negra gaúcha também passa pela memória dos Lanceiros Negros, personagens associados à Revolução Farroupilha e cuja participação no conflito durante muito tempo recebeu menos destaque do que outros episódios da história regional.
A recuperação dessa memória é importante porque ajuda a questionar uma narrativa tradicional em que o negro aparece apenas como escravizado ou trabalhador, e não como protagonista, combatente, líder, religioso, intelectual ou agente cultural.
Foi justamente essa perspectiva que permeou o trabalho da Portela: apresentar um Rio Grande do Sul negro, marcado por resistência e por uma produção cultural própria.
Batuque, Bará e Negrinho do Pastoreio
O desfile também aproximou elementos distintos da cultura e do imaginário gaúcho.
O Bará, associado ao orixá Exu dentro das tradições afro-gaúchas, apareceu como elemento fundamental da narrativa. O Batuque foi apresentado como uma das principais expressões religiosas de matriz africana do Sul do Brasil.
Já o Negrinho do Pastoreio, personagem profundamente conhecido no imaginário popular gaúcho, foi incorporado à narrativa fantástica construída pela escola.
Essa combinação permitiu à Portela apresentar ao público uma história que transitava entre documentos históricos, memória oral, religiosidade, lendas e identidade cultural.
A relação com Porto Alegre
Porto Alegre ocupou papel importante nessa narrativa. A cidade aparece na trajetória de Custódio, na história do Batuque e também na origem do Grupo Palmares.
O próprio Mercado Público da capital foi utilizado pela Portela na divulgação do enredo. O local está associado, pela tradição religiosa, à presença de um assentamento dedicado ao Bará, tornando-se um dos espaços simbólicos da narrativa apresentada pela escola.
A pesquisa também alcançou outras cidades gaúchas, como Pelotas e Rio Grande, ampliando a compreensão sobre a presença negra no Estado e sobre a formação de comunidades, organizações e manifestações culturais afro-gaúchas.
O resultado na Sapucaí
A Portela foi a terceira escola a desfilar no domingo de Carnaval de 2026. O desfile apresentou cerca de 3 mil componentes e levou para a avenida a narrativa construída em torno do Príncipe Custódio, do Batuque e da ancestralidade negra do Rio Grande do Sul.
Apesar da força temática do enredo, a apresentação enfrentou problemas de evolução. A última alegoria teve dificuldades para entrar na pista, provocando um espaço entre as alas e obrigando a escola a acelerar o andamento na parte final do desfile.
Na apuração, a Portela terminou o Carnaval de 2026 na 10ª colocação. A escola alcançou nota máxima nos quesitos Enredo e Mestre-Sala e Porta-Bandeira, mas perdeu pontos em outros critérios, resultado que impediu uma posição mais alta na classificação.
O resultado competitivo, entretanto, não elimina a dimensão cultural do projeto. Ao contrário: o desfile colocou no centro do Carnaval carioca uma parte da história brasileira que ainda é pouco conhecida fora do Sul.
Uma história que voltou para casa
O mais simbólico no projeto da Portela talvez seja justamente o caminho percorrido por essa história.
O 20 de Novembro nasceu da mobilização de jovens negros em Porto Alegre. Décadas depois, a data tornou-se símbolo nacional. Em 2026, uma das maiores escolas de samba do país voltou ao Rio Grande do Sul para pesquisar essa trajetória e transformá-la em espetáculo.
No centro desse processo esteve Antônio Carlos Côrtes, uma das testemunhas daquela geração e personagem vivo da história que começou com o Grupo Palmares.
A Portela terminou o Carnaval em décimo lugar, mas deixou uma contribuição que não pode ser medida apenas pela classificação. Ao apresentar o Príncipe Custódio, o Batuque, o Bará, o Negrinho do Pastoreio, os Lanceiros Negros e a origem gaúcha do 20 de Novembro, a escola ajudou a colocar em evidência uma pergunta que permanece atual:
Quanto da história negra do Rio Grande do Sul ainda precisa ser contado para que a identidade gaúcha seja compreendida em toda a sua diversidade?
A resposta passa por reconhecer que a presença negra não é um capítulo secundário da história do Estado. Ela está na formação de Porto Alegre, nas religiões de matriz africana, no Carnaval, na literatura, na política, na cultura popular e nos movimentos sociais.
E uma parte dessa história, iniciada há mais de cinco décadas em Porto Alegre, chegou em 2026 à Marquês de Sapucaí.
Fonte: ConexRS
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