A trajetória de Antônio Carlos Côrtes ajuda a compreender por que a abolição da escravidão, embora fundamental, não significou o fim da desigualdade racial no Brasil. Para o advogado, escritor, jornalista, psicanalista e um dos fundadores do Grupo Palmares, a Lei Áurea representou apenas uma ruptura formal com a escravidão, sem criar condições concretas para a inclusão social da população negra. Por isso, ele defende a necessidade de uma “segunda abolição”: aquela capaz de transformar liberdade jurídica em igualdade efetiva.
A ideia ganhou força na trajetória de Côrtes ainda nos anos 1970, quando, ao lado de Oliveira Silveira, Ilmo da Silva e Vilmar Nunes, participou da construção do Grupo Palmares, em Porto Alegre. O movimento questionou a centralidade do 13 de Maio e ajudou a estabelecer o 20 de Novembro como uma data de resistência e afirmação da história negra. O primeiro ato evocativo ocorreu em 1971, em plena ditadura militar. Mais de cinco décadas depois, o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra tornou-se feriado nacional pela Lei 14.759, sancionada em dezembro de 2023.
Para Côrtes, entretanto, reconhecer uma data não basta. A segunda abolição passa por educação, representação política, oportunidades profissionais, políticas afirmativas e valorização da cultura negra. Sua crítica central é justamente à distância entre a presença expressiva da população negra na sociedade brasileira e sua representação nos espaços de poder, nas instituições e nas estruturas de decisão.
Essa visão também está ligada à sua defesa das cotas e de outras políticas de reparação. Côrtes entende que medidas afirmativas não representam privilégio, mas instrumentos para reduzir um desequilíbrio histórico produzido por séculos de escravização e pela ausência de políticas de inclusão depois de 1888. Para ele, o talento existe; o que frequentemente falta é oportunidade. Essa ideia aparece também em sua defesa da literatura, da música, das escolas de samba e das manifestações culturais negras como espaços de afirmação e transformação social.

A história do próprio Côrtes sintetiza essa luta por espaço. Em 2023, ele se tornou o terceiro negro a ocupar uma cadeira na Academia Rio-Grandense de Letras, depois de um intervalo de 95 anos sem a presença de um negro entre os acadêmicos efetivos da instituição. Em 2025, ao revisitar a história do Grupo Palmares, voltou a defender que o legado do movimento precisa ser transformado em políticas públicas, preservação da memória e educação antirracista.
O pensamento de Antônio Carlos Côrtes, portanto, vai além da denúncia do racismo. Sua proposta é de transformação estrutural: reconhecer a contribuição histórica da população negra, recuperar memórias apagadas e garantir condições para que novos talentos ocupem os espaços que durante muito tempo lhes foram negados. A primeira abolição libertou juridicamente. A segunda, em sua concepção, somente estará completa quando liberdade, dignidade, oportunidade e igualdade deixarem de ser promessas e se tornarem realidade.
