Jones Manoel aponta atraso digital da esquerda e critica desconexão com a juventude

Jones Manoel aponta atraso digital da esquerda e critica desconexão com a juventude

Política

A comunicação digital tornou-se um campo de batalha decisivo na política contemporânea, e o diagnóstico sobre o desempenho dos campos ideológicos no Brasil é motivo de intenso debate. Para o historiador e candidato a deputado federal pelo PSOL em Pernambuco, Jones Manoel, a esquerda brasileira enfrenta um desafio estrutural: a chegada tardia ao ambiente das redes sociais e uma dificuldade persistente em dialogar com as novas gerações, o que ele classifica como uma postura frequentemente vista como “cringe”.

O abismo entre a narrativa progressista e a realidade da juventude

Em entrevista ao podcast A Máquina, série produzida pela Folha, Manoel argumenta que a falha não é apenas técnica, mas de conteúdo. Segundo o historiador, a esquerda tem se pautado excessivamente por uma defesa do passado, falhando em construir um projeto de futuro que ressoe com os anseios de uma juventude precarizada. Ele critica a forma como dados macroeconômicos são utilizados para validar realidades laborais exaustivas, como o trabalho por aplicativos, sem oferecer perspectivas de mudança estrutural.

A hegemonia algorítmica e o pioneirismo da direita

Ao analisar por que nomes como Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro conseguem altos índices de engajamento, Manoel aponta três fatores fundamentais. O primeiro é a própria natureza das plataformas digitais. O historiador cita estudos e reportagens internacionais que sugerem um condicionamento da governança algorítmica das big techs, que, segundo ele, privilegiaria conteúdos alinhados à extrema direita.

O segundo ponto é o pioneirismo estratégico. Enquanto a esquerda mantinha certa resistência ao ambiente virtual, setores da direita e da extrema direita já ocupavam o espaço digital de forma organizada desde o início da década passada, disseminando ideologias através de figuras como Olavo de Carvalho. Para Manoel, a esquerda só começou a ocupar esse território de forma mais substantiva a partir de 2017, com o surgimento de canais de sucesso voltados ao pensamento marxista.

O desafio da descentralização partidária

O terceiro elemento destacado pelo candidato é o contexto histórico da universalização da internet no Brasil. Durante o período de expansão do acesso digital, o PT ocupava o governo federal, o que, na visão de Manoel, acabou por associar o campo progressista ao establishment. Esse cenário favoreceu o crescimento de discursos antissistema, que encontraram terreno fértil nas redes.

Além disso, o historiador aponta que a estrutura hierárquica e centralizada dos partidos políticos brasileiros, muitas vezes dominada por linhagens familiares tradicionais, dificulta o florescimento de um ativismo digital autêntico. A natureza descentralizadora da internet, que permite a ascensão de novas vozes fora das estruturas partidárias convencionais, acaba por criar um choque com o modelo de organização política tradicional, que ainda luta para compreender e dominar a linguagem dinâmica das redes sociais.

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Fonte: redir.folha.com.br