Os preços internacionais do trigo registraram um aumento de 13% entre 10 de agosto e 10 de setembro, impulsionados por tensões geopolíticas no Mar Negro e dificuldades enfrentadas pela Rússia para escoar sua produção. No Brasil, a qualidade das lavouras no Sul também gera preocupações, limitando a pressão sazonal da colheita sobre as cotações.
A análise é parte do Agro Mensal, relatório da Consultoria Agro do Itaú BBA. Segundo o documento, a perspectiva para o mercado de trigo é otimista, mesmo sem uma escassez global, devido à menor disponibilidade de grãos de qualidade e riscos climáticos na América do Sul.
A influência da guerra entre Rússia e Ucrânia
A guerra entre Rússia e Ucrânia tem um impacto direto no mercado internacional de trigo. As dificuldades logísticas para a comercialização do trigo russo elevaram os prêmios e sustentaram a valorização do cereal. No dia 10 de setembro, as cotações internacionais fecharam em US$ 7,23 por bushel, refletindo uma alta de 13% em 30 dias.
Embora rumores sobre um possível acordo de paz tenham pressionado os contratos no início de setembro, os preços permaneceram elevados, evidenciando as incertezas sobre a continuidade dos embarques pelo Mar Negro. O Itaú BBA acredita que o prêmio de risco deverá continuar incorporado às cotações internacionais enquanto os problemas logísticos persistirem.
Desafios nas exportações russas
Os desafios de escoamento se refletem nos dados de exportação da Rússia, que em agosto embarcou apenas 1,3 milhão de toneladas de trigo, volume significativamente inferior ao do mesmo período do ano anterior. Essa situação evidencia os impactos das restrições logísticas e dos ataques na região do corredor Azov-Mar Negro, uma rota estratégica para o comércio mundial de grãos.
O mercado agora observa se esses obstáculos serão temporários ou se comprometerão a presença russa nas exportações globais por um período mais longo. Uma redução prolongada nos embarques pode aumentar a demanda por trigo produzido em outras origens.
Impacto no mercado brasileiro
O ambiente externo mais firme tem contribuído para sustentar os preços do trigo no Brasil, mesmo com o avanço da colheita nacional. No Paraná, a saca foi comercializada, em média, a R$ 77,96, uma valorização de 4% nos últimos 30 dias. Normalmente, o aumento da oferta durante a colheita exerce pressão sobre as cotações, mas as preocupações com possíveis perdas de qualidade, provocadas pelo excesso de chuvas, limitaram essa baixa.
A combinação de preços internacionais elevados e incertezas sobre a qualidade do trigo brasileiro manteve as negociações domésticas em patamares mais firmes. O clima nos próximos meses será crucial para a safra brasileira, com previsões associadas ao El Niño indicando a continuidade de condições mais úmidas na Região Sul.
Riscos climáticos e qualidade do trigo
Embora as chuvas reduzam o risco de estresse hídrico, o excesso de umidade e a menor luminosidade podem favorecer doenças fúngicas, comprometendo a qualidade dos grãos. No Paraná, as precipitações durante a colheita já aumentaram a preocupação com perdas qualitativas. No Rio Grande do Sul, o risco permanece elevado, pois uma parte relevante das lavouras ainda está em fase de floração e enchimento de grãos.
Além da produtividade, o setor acompanha parâmetros como peso hectolitrico, germinação, nível de proteína e presença de micotoxinas, fatores decisivos para a utilização do trigo pela indústria moageira.
Perspectivas para o mercado global
Nos Estados Unidos, a menor disponibilidade de trigo duro de inverno deve sustentar os preços do cereal destinado à panificação. Os estoques exportáveis norte-americanos estão mais restritos, o que pode direcionar uma parcela maior da demanda mundial ao trigo dos EUA. Para a temporada 2026/27, o USDA projeta uma produção norte-americana de 42 milhões de toneladas, uma retração de 23% em relação às 54 milhões estimadas para o ciclo anterior.
Na América do Sul, a atenção está voltada para a qualidade da próxima safra argentina, que apresenta bom desenvolvimento, com cerca de 96% da área classificada em condições normais a excelentes. A produção é estimada em cerca de 21 milhões de toneladas, e a qualidade do trigo argentino é especialmente relevante para o Brasil, que depende desse país como seu principal fornecedor externo.
O balanço do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos indica uma produção mundial de 822 milhões de toneladas na safra 2026/27, uma queda de 3% em relação ao ciclo anterior. Embora a oferta mundial permaneça suficiente para atender ao consumo, o mercado enfrenta dúvidas sobre a disponibilidade de trigo com as características exigidas pela indústria.
Esse cenário tende a manter as cotações internacionais firmes e a limitar quedas mais intensas no Brasil, especialmente enquanto persistirem as incertezas sobre a qualidade das colheitas no Paraná, no Rio Grande do Sul e na Argentina.
Fonte: portaldoagronegocio.com.br
