China detém 33% das exportações do agronegócio brasileiro, aumentando riscos geopolíticos

China detém 33% das exportações do agronegócio brasileiro, aumentando riscos geopolíticos

Agro

O agronegócio brasileiro tem se destacado no comércio internacional, mas essa ascensão traz consigo um aumento na exposição a riscos geopolíticos. Atualmente, a China representa cerca de 33% do valor das exportações do setor agropecuário nacional, enquanto o Brasil depende fortemente de insumos importados, com aproximadamente 80% dos fertilizantes e defensivos agrícolas sendo adquiridos do exterior.

Essas informações foram reveladas no estudo “As exportações do agronegócio brasileiro e a nova onda geopolítica”, elaborado pelo RaboResearch e divulgado em setembro de 2026. O relatório, assinado por Andy Duff, gerente regional do RaboResearch Food & Agribusiness para a América do Sul, destaca que a concentração de mercados compradores e a dependência de insumos importados são riscos significativos para o Brasil.

Dependência de insumos e mercados compradores

A análise do RaboResearch aponta que a fragmentação das relações internacionais exige que o Brasil desenvolva novas estratégias para manter a competitividade de suas exportações. Entre as recomendações estão a ampliação da produção nacional de insumos, a diversificação dos destinos e produtos exportados, e o fortalecimento das relações com parceiros comerciais estratégicos.

Embora a União Europeia e os Estados Unidos sejam grandes exportadores de alimentos e commodities, o Brasil se consolidou como o principal exportador líquido global desses produtos nos últimos anos. Dados da Organização Mundial do Comércio indicam que as exportações líquidas brasileiras cresceram de forma consistente, enquanto as da União Europeia permaneceram estagnadas e os Estados Unidos passaram de exportadores líquidos a importadores líquidos.

Transformações nos fluxos comerciais

A transformação dos fluxos comerciais brasileiros é evidente ao comparar os períodos de 2003 a 2005 e de 2023 a 2025. No primeiro intervalo, a China respondia por apenas 7% do valor das exportações brasileiras de alimentos e produtos agrícolas; duas décadas depois, essa participação saltou para 33%. Em contrapartida, a fatia da União Europeia nas exportações do agronegócio brasileiro caiu de 32% para 14%.

Atualmente, os três maiores mercados do agronegócio brasileiro são China, União Europeia e Estados Unidos, que juntos concentram 54% do valor exportado pelo setor. As vendas para outros países estão diluídas entre mais de 100 nações, com nenhum deles respondendo por mais de 3% das exportações, embora blocos como o Mercosul e o Oriente Médio tenham relevância.

Vulnerabilidades e riscos associados

A dependência de poucos compradores é um fator de vulnerabilidade, especialmente para as commodities. O estudo revela que a China está entre os três principais destinos de nove das dez commodities agrícolas analisadas. Em seis dessas cadeias produtivas, os três maiores mercados absorvem mais da metade das exportações brasileiras. Isso implica que mudanças tarifárias ou comerciais por parte desses grandes compradores podem ter impactos significativos sobre preços e embarques.

A vulnerabilidade do setor se estende também ao uso de combustíveis. A capacidade de refino no Brasil não acompanhou o aumento do consumo, resultando em importações que representam entre 25% e 30% da demanda nacional por diesel. Essa dependência expõe os produtores a riscos associados a conflitos, restrições comerciais e oscilações cambiais.

Impactos geopolíticos recentes

O relatório menciona os efeitos do conflito no Oriente Médio em 2026 sobre os mercados de combustíveis e fertilizantes, refletindo preocupações semelhantes às observadas após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia em 2022. O ambiente internacional se tornou mais fragmentado, com países adotando políticas voltadas para segurança alimentar e autonomia produtiva.

Um exemplo disso foi a elevação das tarifas pelos Estados Unidos em 2025, que afetou produtos brasileiros, mas também resultou em exceções para itens como café e carne bovina, nos quais o mercado norte-americano depende da oferta brasileira.

O futuro das relações comerciais

As mudanças na política comercial da China também são relevantes. Em março de 2026, o país aprovou seu 15º Plano Quinquenal, focando em segurança alimentar e maior autossuficiência. Uma das medidas práticas foi a adoção de cotas para a carne bovina, reduzindo as importações de 1,7 milhão de toneladas em 2025 para 1,1 milhão em 2026. Isso representa uma perda significativa para os exportadores brasileiros, que precisam encontrar novos compradores para cerca de 17% da carne bovina exportada.

Apesar da necessidade de diversificação, o RaboResearch acredita que a interdependência comercial entre Brasil e China deve continuar a existir no curto prazo, dada a magnitude da demanda chinesa e a capacidade de fornecimento do Brasil. O relatório recomenda que o Brasil amplie o diálogo com seus principais compradores, o que pode ajudar a antecipar mudanças e preparar alternativas logísticas e comerciais.

As transformações demográficas e as mudanças nas demandas globais por alimentos podem alterar o cenário no longo prazo, mas, por ora, a relação entre Brasil e China permanece crucial para o agronegócio brasileiro.

Fonte: portaldoagronegocio.com.br