A realidade dos usuários de alta complexidade no centro
Embora o discurso político sobre o fim da cracolândia tenha ganhado destaque na campanha à reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), a realidade das ruas do centro de São Paulo aponta para um cenário de agravamento no perfil dos dependentes químicos. Dados recentes revelam que o número de usuários classificados como de alta complexidade, que exigem acompanhamento intensivo das equipes de saúde, mais do que dobrou no primeiro semestre de 2026.
O levantamento do programa municipal anticrack indica que 447 pessoas foram identificadas nessa categoria crítica entre janeiro e junho deste ano. Para fins de comparação, no mesmo período de 2025, o registro era de 222 indivíduos. Esse grupo, denominado pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) como Casos Mais Vulneráveis (MV), representa um desafio complexo para as políticas públicas, pois combina a dependência severa de entorpecentes com comorbidades graves, como tuberculose, HIV e transtornos psiquiátricos.
Estratégias de abordagem e o impacto da dispersão
A dispersão dos grandes fluxos de usuários, ocorrida em maio do ano passado com o fim da aglomeração na rua dos Protestantes, no bairro Campos Elíseos, alterou a dinâmica de atuação das equipes de assistência. Em vez de um ponto fixo, os profissionais de saúde agora lidam com grupos fragmentados que circulam pela região central. Apenas no primeiro semestre de 2026, foram realizadas 3.965 abordagens direcionadas a esse público específico, o que reflete uma média de nove atendimentos individuais por pessoa no período.
Apesar da desmobilização do ponto principal, especialistas apontam que a fragmentação não significa a resolução do problema. Segundo a pesquisadora Clarice Madruga, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o fim de uma aglomeração central apenas força a reorganização dos usuários em pequenos grupos. Estudos conduzidos por ela indicam que a “torneira” do consumo não foi fechada, com um crescimento anual de 20% de novos dependentes nas ruas da capital paulista até 2024.
O debate eleitoral e a revitalização urbana
O tema tem sido central no debate político paulista. Enquanto a campanha de Tarcísio de Freitas utiliza a imagem da revitalização urbana como um marco de sucesso, o cenário real de saúde pública permanece tensionado. A transformação da antiga área de concentração em um espaço de lazer, batizado como Praça do Triunfo, foi celebrada em julho pelo governador e pelo prefeito, que participaram de atividades esportivas no local acompanhados por aliados políticos, como o deputado estadual André do Prado (PL).
A controvérsia reside na divergência entre a percepção visual de um espaço público recuperado e a persistência da crise humanitária que atinge os dependentes químicos. A carência de equipamentos de saúde capazes de intervir antes que o indivíduo atinja um estágio de degradação extrema, como o abandono familiar e o agravamento de doenças crônicas, continua sendo o ponto central de preocupação para especialistas e gestores que acompanham a evolução da dependência química na metrópole.
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Fonte: redir.folha.com.br
