Safra gaúcha enfrenta incertezas com escassez de diesel e restrição ao crédito

Safra gaúcha enfrenta incertezas com escassez de diesel e restrição ao crédito

Municípios

O setor agropecuário do Rio Grande do Sul inicia o plantio da safra de verão sob um cenário de pressão tripla. Produtores rurais enfrentam, simultaneamente, dificuldades no abastecimento de óleo diesel, uma retração acentuada no acesso ao crédito e a previsão de instabilidade climática severa provocada pelo fenômeno El Niño. O alerta foi emitido pela Farsul (Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul), que aponta riscos concretos à produtividade das lavouras gaúchas.

A preocupação central reside na combinação de custos elevados e falta de insumos básicos no momento exato em que as máquinas deveriam estar em operação plena nos campos. Enquanto a Federação busca respostas junto aos órgãos reguladores, o setor tenta calcular o impacto financeiro que a instabilidade pode gerar na economia do estado, que tem no agronegócio um dos seus principais pilares de sustentação.

Impactos da escassez de combustível no campo

A falta de diesel tem se tornado um obstáculo recorrente para a logística agrícola. Em setembro, a Farsul protocolou ofícios junto à ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) relatando dificuldades de acesso ao combustível, um problema que traz ecos de crises anteriores registradas entre março e abril, durante a colheita do arroz e da soja. Naquele período, cerca de 170 municípios gaúchos enfrentaram limitações graves, com preços que chegaram a atingir R$ 9 por litro.

A entidade alerta que a interrupção no fornecimento não apenas atrasa o cronograma de plantio, mas pode resultar na redução da área cultivada. O impacto financeiro é expressivo: uma alta de 21,1% no preço do diesel S10, elevando o custo de R$ 5,97 para R$ 7,23 por litro, representa um acréscimo de R$ 612,2 milhões aos custos operacionais mecanizados. Em um cenário de desabastecimento mais severo, as perdas potenciais ao setor podem chegar a R$ 1,47 bilhão. Em resposta, a ANP afirmou que o abastecimento nacional ocorre regularmente, embora reconheça relatos pontuais de dificuldades na aquisição de diesel S500.

Retração no crédito rural e desafios financeiros

Além do combustível, o acesso ao capital tornou-se um gargalo crítico. Dados do Banco Central citados pela Farsul revelam que a área custeada com crédito rural no Brasil encolheu de 34,2 milhões de hectares em julho de 2025 para 25,4 milhões em julho de 2026. No Rio Grande do Sul, a situação é ainda mais delicada, com uma retração de 29,3% na área financiada, superando a média nacional.

A causa dessa queda é multifatorial. A inadimplência e o volume de renegociações dobraram em dois anos, agravados pelos impactos das enchentes de abril e maio de 2024, que comprometeram a capacidade de pagamento de muitos produtores. Somam-se a isso a taxa Selic em 14% ao ano e a Resolução CMN 4.966, que impõe aos bancos uma postura mais cautelosa na análise de risco prospectivo. Para o pequeno produtor, que depende majoritariamente do Plano Safra e de linhas bancárias tradicionais, as alternativas tornam-se cada vez mais escassas.

O papel do El Niño na instabilidade climática

Para complicar o planejamento da safra 2026/27, o Boletim 79 do Copaaergs (Conselho Permanente de Agrometeorologia Aplicada do Estado do Rio Grande do Sul) projeta uma primavera sob forte influência do El Niño. A previsão é de excesso de chuvas em toda a Região Sul, com acumulados que podem superar a média histórica do trimestre em até 200 milímetros.

O excesso de umidade dificulta a entrada de máquinas e compromete a uniformidade da emergência das plantas, afetando o estande das lavouras de soja e milho. Embora o clima possa favorecer o desenvolvimento posterior das culturas, a janela de plantio torna-se mais estreita, exigindo precisão máxima dos produtores. O cenário exige atenção constante, e o ConexRS segue acompanhando os desdobramentos desta safra, trazendo análises sobre os impactos econômicos e climáticos que moldam o futuro do agronegócio gaúcho.

Fonte: agorars.com