A crítica de João Moreira Salles ao pragmatismo econômico
Em um artigo de forte repercussão publicado na revista piauí, o fundador da publicação, João Moreira Salles, lançou um questionamento contundente sobre o comportamento de lideranças do setor empresarial brasileiro. Segundo o autor, parte expressiva da elite econômica nacional estaria disposta a ignorar riscos à estabilidade democrática em troca de uma agenda fiscal e econômica que atenda aos seus interesses imediatos, aproximando-se da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à presidência.
O texto, que circula em um momento de intenso debate político, argumenta que o alinhamento não decorre de um desconhecimento sobre o histórico do clã Bolsonaro. Pelo contrário, Salles sustenta que o apoio ou a abertura de diálogo por parte de executivos e investidores ocorre apesar do histórico político do grupo, configurando, na visão do autor, uma escolha deliberada de “desviar os olhos” para garantir previsibilidade econômica.
O dilema ético e a memória do regime militar
Um dos pontos centrais da reflexão de João Moreira Salles é o resgate de episódios que, segundo ele, deveriam ser impeditivos para qualquer normalização política. O autor recorda a homenagem feita por Jair Bolsonaro ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff. Ustra foi reconhecido judicialmente como responsável por práticas de tortura durante a ditadura militar.
Salles enfatiza que Flávio Bolsonaro nunca repudiou o gesto do pai, tendo, inclusive, defendido a postura em diversas ocasiões. Para o fundador da piauí, a continuidade política entre pai e filho é um dado fundamental para compreender o projeto de poder que se apresenta. O autor questiona como a elite empresarial pode legitimar um projeto que, em sua visão, flerta com a erosão de valores institucionais e democráticos, tratando o passado autoritário como um detalhe superável em nome do pragmatismo.
A lista de executivos e o impacto no debate público
O artigo ganha contornos de denúncia ao listar nominalmente 28 figuras de peso no empresariado e no mercado financeiro. Entre os citados por Salles estão nomes como André Esteves, Rubens Ometto, Luiz Carlos Trabuco e Flávio Rocha. O autor também menciona Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú, banco do qual a família Moreira Salles é sócia, evidenciando uma crítica que atravessa as próprias relações do autor.
A exposição desses nomes gerou um debate imediato sobre o papel das corporações na política nacional. Enquanto setores do mercado defendem que o diálogo com todos os candidatos é uma prática institucional necessária para a estabilidade do país, críticos do movimento, como Salles, argumentam que o silêncio ou a aproximação com figuras que contestam pilares democráticos representa uma omissão perigosa. O texto coloca em xeque a responsabilidade social das elites diante da preservação das instituições brasileiras.
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Fonte: redir.folha.com.br

