O exercício da cidadania nas urnas em 2026 revelou um cenário de contrastes para os brasileiros. Enquanto o país celebra o maior número de eleitores com deficiência já registrado pela Justiça Eleitoral, a prática cotidiana nas seções de votação ainda impõe obstáculos significativos. Com quase 2 milhões de pessoas aptas a votar nesta categoria, a infraestrutura física de muitos locais de votação mostrou-se insuficiente para garantir o acesso pleno e digno a todos os cidadãos.
O caso de Alexandre Prudente, cadeirante, ilustra a complexidade dessa jornada. Ao se dirigir à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), no Maracanã, ele enfrentou uma maratona de rampas e elevadores, apenas para descobrir que sua seção eleitoral havia sido transferida. Sem conseguir confirmar a mudança de local previamente pela internet, o eleitor precisou se deslocar por mais de um quilômetro até a Igreja Metodista, em Vila Isabel, onde ainda aguardou uma hora em fila, mesmo com o direito à prioridade garantido por lei.
Desafios estruturais e a busca por acessibilidade
A situação vivida por Alexandre não é isolada. Em diversos pontos do país, a falta de adaptação em prédios públicos, que frequentemente servem como locais de votação, gera frustração. Isaura dos Santos, de 77 anos, relatou dificuldades no Colégio Estadual Senor Abravanel, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Com mobilidade reduzida, a eleitora foi obrigada a subir escadas em um ambiente sem elevador e com iluminação precária, evidenciando que a acessibilidade vai muito além da rampa de entrada.
Apesar das falhas estruturais, o esforço humano tem sido um ponto de apoio. A atriz Isabela Quadros, que acompanhou sua mãe, Maria Lídia Gomes de Matos, de 85 anos, destacou a importância do suporte prestado pelos mesários. Mesmo em locais sem a estrutura ideal para receber pessoas com limitações motoras ou de fala, a sensibilidade da equipe de apoio foi determinante para que o voto fosse concretizado, reforçando que a inclusão ainda depende, muitas vezes, da boa vontade individual em vez de sistemas plenamente preparados.
A expansão das urnas adaptadas e o papel da Justiça Eleitoral
O crescimento do eleitorado com deficiência é notável, saltando de 1,3 milhão em 2022 para 1,9 milhão em 2026. Para responder a essa demanda, a Justiça Eleitoral ampliou o número de seções adaptadas para 220,5 mil, um salto significativo em relação às 156,2 mil registradas no pleito anterior. Esse contingente inclui eleitores com dificuldades de locomoção, deficiência visual, auditiva e outras necessidades específicas que exigem atenção redobrada do poder público.
A Justiça Eleitoral argumenta que a maioria dos locais de votação pertence a redes públicas de ensino ou instituições parceiras, cujas condições físicas sofrem alterações ao longo do tempo. Segundo o órgão, tribunais regionais realizam vistorias periódicas para atualizar o mapeamento desses espaços. Além das adaptações prediais, a tecnologia atua como aliada: as urnas eletrônicas contam com teclado em braile e sistema de áudio para eleitores com deficiência visual, acessível mediante o uso de fones de ouvido fornecidos no local.
Para garantir que o direito ao voto seja exercido, a legislação eleitoral assegura prioridade absoluta e a possibilidade de auxílio na cabine de votação. Eleitores podem ser acompanhados por pessoas de sua confiança, desde que estas não estejam a serviço da Justiça Eleitoral ou de partidos políticos. A busca por um processo democrático verdadeiramente inclusivo permanece como um desafio contínuo para o sistema eleitoral brasileiro, que equilibra a expansão tecnológica com a necessidade urgente de reformas físicas nos espaços de votação.
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Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

