As eleições de 2026 marcaram um momento histórico para a democracia brasileira, com 20 estados definindo seus governadores logo na primeira etapa da votação. No entanto, o cenário político do Rio de Janeiro, tradicionalmente complexo, pode elevar esse número para 21. Uma reviravolta jurídica envolvendo a candidatura de Anthony Garotinho (Republicanos) abriu caminho para que Douglas Ruas (PL) seja declarado eleito sem a necessidade de um segundo turno.
A mudança no panorama eleitoral decorre da decisão de Garotinho em desistir de um recurso que tramitava no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O ex-governador disputou o pleito de domingo (4) na condição de “sob júdice”, após ter sua candidatura indeferida pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ). Com a retirada do recurso, os votos recebidos por ele tendem a ser anulados, o que altera diretamente o cálculo dos votos válidos e beneficia o candidato que lidera a disputa.
O impacto jurídico da desistência de Anthony Garotinho
Nas urnas, Anthony Garotinho obteve 3,17% dos votos. Embora tenham sido contabilizados, a validade desses votos dependia do sucesso de sua defesa no TSE. Com a desistência formalizada nesta segunda-feira (5), a tendência é que a Justiça Eleitoral realize um recálculo do quociente eleitoral. Na prática, ao retirar os votos de Garotinho do total de “votos válidos”, o percentual dos demais candidatos sobe proporcionalmente.
Douglas Ruas, que encerrou a apuração com 49,27% dos votos válidos, precisa de apenas 50% mais um voto para liquidar a fatura. De acordo com projeções técnicas, a anulação dos votos de Garotinho é suficiente para empurrar Ruas acima do patamar necessário para a vitória imediata. Caso isso se confirme, o segundo turno previsto para o dia 25 de outubro contra Eduardo Paes (PSD), que obteve 42,76%, será cancelado.
Ascensão de Douglas Ruas e o cenário político fluminense
A performance de Douglas Ruas surpreendeu analistas e contrariou as principais pesquisas de intenção de voto, que apontavam um cenário de maior equilíbrio ou até liderança de Paes. Ruas, que é inspetor licenciado da Polícia Civil e filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson, consolidou sua base eleitoral na Região Metropolitana e surfou na força do PL no estado.
Sua trajetória política ganhou tração rápida. Após atuar como secretário municipal em São Gonçalo e ser eleito deputado estadual em 2022, ele assumiu a Secretaria de Estado das Cidades no governo de Cláudio Castro. Em março de 2026, retornou à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), onde foi eleito presidente da Casa, cargo que utilizou como vitrine para sua candidatura ao Palácio Guanabara.
Crise institucional e a sucessão no Palácio Guanabara
A eleição de 2026 ocorre em um contexto de profunda instabilidade administrativa no Rio de Janeiro. Desde março, o estado é comandado interinamente por Ricardo Couto de Castro, presidente do Tribunal de Justiça (TJ-RJ). A vacância no cargo titular ocorreu após a renúncia e posterior condenação de Cláudio Castro por abuso de poder político e econômico, tornando-o inelegível por oito anos.
A linha sucessória do estado também enfrentou percalços. O vice-governador Thiago Pampolha (MDB) havia deixado o cargo para assumir uma vaga no Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ), e o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, também foi atingido por decisões judiciais. Esse vácuo de poder aumentou a relevância da disputa atual, vista como uma oportunidade de normalização institucional para o Rio.
O imbróglio jurídico de Garotinho, por sua vez, remete a condenações por improbidade administrativa relacionadas a fatos de 2005 e 2006, período em que sua esposa, Rosinha Garotinho, governava o estado. A desistência do recurso encerra, ao menos temporariamente, as pretensões eleitorais do político de Campos dos Goytacazes e coloca o destino do Rio nas mãos do TSE.
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Fonte: seudinheiro.com

