Logística brasileira: custo do transporte de grãos supera em 48% o dos EUA

Logística brasileira: custo do transporte de grãos supera em 48% o dos EUA

Agro

O agronegócio brasileiro vive um paradoxo: enquanto a produtividade no campo bate recordes, a infraestrutura de escoamento enfrenta gargalos que corroem a competitividade do setor. Dados debatidos recentemente no painel Logística e Infraestrutura: O Futuro do Escoamento da Produção, realizado no GAFFFF, em São Paulo, revelam que o custo para transportar grãos no Brasil pode ser até 48% superior ao praticado nos Estados Unidos. O abismo logístico é impulsionado pela dependência excessiva do modal rodoviário e por um déficit crônico de armazenagem.

A dependência rodoviária e o desafio das distâncias

A comparação com os Estados Unidos é frequentemente citada por especialistas como um espelho do que o Brasil precisa alcançar. Embora ambos os países possuam extensões territoriais continentais, a matriz de transporte brasileira é desproporcionalmente concentrada em rodovias. Segundo Elisangela Pereira Lopes, assessora técnica da Comissão Nacional de Logística e Infraestrutura da CNA, a integração multimodal americana — que utiliza com eficiência hidrovias e ferrovias — é o principal fator que mantém os custos de frete mais baixos naquele país.

Para o produtor brasileiro, especialmente em estados como Mato Grosso, o desafio é geográfico e financeiro. Com distâncias que chegam a 2 mil quilômetros entre as fazendas e os portos de exportação, o caminhão torna-se uma ferramenta cara para longos percursos. Fernando Dihel, diretor executivo da Ultracargo, reforça que, embora o modal rodoviário seja indispensável para curtas e médias distâncias, a falta de uma rede ferroviária e hidroviária robusta encarece o produto final, reduzindo a margem de lucro do agricultor e pressionando os preços internacionais.

Déficit de silos e a necessidade de estocagem

Além do frete, a capacidade de estocagem é outro ponto crítico. Atualmente, o Brasil possui silos capazes de abrigar apenas 62% da sua produção total de grãos. Em Mato Grosso, o maior produtor do país, essa realidade é ainda mais severa, com capacidade para guardar apenas metade do que é colhido. Esse descompasso força o produtor a vender a safra logo após a colheita, em um momento de oferta abundante e preços pressionados, perdendo o poder de barganha que a armazenagem estratégica permitiria.

Bernardo Nogueira, CEO da Kepler Weber, projeta que o cenário deve mudar na próxima década. Com a tendência de desaceleração na abertura de novas áreas de cultivo, a expectativa é que o capital seja redirecionado para a infraestrutura dentro da porteira. Investimentos em silos, sistemas de irrigação e gestão de riscos tornam-se prioridades para garantir a sustentabilidade do negócio. Segundo Nogueira, o setor não demanda subsídios, mas sim previsibilidade jurídica e econômica para viabilizar projetos de longo prazo.

Obras estratégicas e o futuro do escoamento

A infraestrutura rodoviária, embora insuficiente, segue sendo o foco de intervenções imediatas. A BR-163, por onde transita cerca de 80% da produção mato-grossense, é o exemplo mais claro da importância de obras de duplicação. Cidinho Santos, presidente do Conselho Administrativo da Nova Rota do Oeste, aponta que a conclusão da duplicação entre o Posto Fiscal de Diamantino e Sinop, prevista para o final de 2026, é um passo fundamental para destravar o fluxo de caminhões e reduzir os riscos de acidentes e atrasos.

O futuro do agronegócio nacional, portanto, passa por uma agenda de modernização que vai além do asfalto. A integração entre modais, o aumento da capacidade estática de silos e o fortalecimento da agroindustrialização — como visto na expansão do etanol de milho e do biodiesel — são os pilares para que o Brasil mantenha sua posição de liderança global. O ConexRS segue acompanhando os desdobramentos da infraestrutura nacional, trazendo análises sobre os temas que definem o desenvolvimento econômico e a competitividade do país.

Fonte: portaldoagronegocio.com.br