Com pouco mais de 3,6 mil habitantes, a pequena Vila Flores, situada na Serra Gaúcha, conquistou um reconhecimento de peso ao ser selecionada para representar o Brasil em uma iniciativa global da Organização das Nações Unidas (ONU). O projeto busca identificar e premiar vilas que se destacam pela capacidade de integrar o turismo à preservação da identidade cultural, inclusão social e práticas de sustentabilidade.
Localizada estrategicamente entre os municípios de Veranópolis e Nova Prata, a cidade se tornou um exemplo de como o desenvolvimento local pode caminhar lado a lado com a manutenção de tradições seculares. O reconhecimento da ONU coloca o município em um patamar de visibilidade internacional, destacando um modelo de gestão que prioriza a autenticidade em vez da exploração turística massificada.
A força da fé e a preservação histórica
A identidade de Vila Flores está intrinsecamente ligada à religiosidade, um pilar que moldou a ocupação do território pelos imigrantes. Um dos marcos dessa trajetória é a Capela São Jorge, erguida há 131 anos. A estrutura, construída em pedra e barro, é um testemunho da resiliência dos primeiros colonizadores, que enfrentaram adversidades climáticas e pragas agrícolas, consolidando a fé como um elemento de coesão social que permanece vivo até hoje.
A espiritualidade também se manifesta no cotidiano de moradores como Glória Zancanaro, de 81 anos, idealizadora do Santuário Divino Pai Eterno. Para a comunidade, o espaço não é apenas um ponto de visitação, mas um local de vivência comunitária. A preservação desses espaços, aliada à hospitalidade dos moradores, cria um ambiente onde o visitante é recebido como um convidado, reforçando o conceito de turismo de experiência que a ONU valoriza.
Tradição italiana e o resgate dos filós
A herança dos imigrantes italianos é celebrada com vigor nos tradicionais filós. Mais do que uma atração turística, esses encontros noturnos são a recriação da rotina dos antepassados, onde a polenta, o vinho e as canções típicas ocupam o centro da mesa. A espontaneidade dessas reuniões, que evitam a encenação excessiva, é apontada pelos moradores como o grande diferencial da cidade.
Como destaca a artista Benedita Zandoná Ceccato, o que o turista encontra em Vila Flores é um sistema de vida real, não uma performance preparada para o mercado. Essa autenticidade é o que garante que a cultura local não se perca com o tempo, mas seja transmitida de geração em geração, mantendo viva a memória das famílias que desbravaram a Serra Gaúcha.
Sustentabilidade e o legado do enoturismo
O enoturismo em Vila Flores possui uma característica singular: a produção conduzida por freis capuchinhos, uma tradição que remonta a 1896. O processo de maturação das bebidas, que, segundo a crença local, é beneficiado pelo canto gregoriano, atrai curiosos e especialistas. O enólogo Djair Galvan explica que a atividade evoluiu para um patamar profissional sem que a conexão com as origens religiosas fosse rompida.
Para Beatriz Paulus, diretora executiva da Associação de Turismo da Serra Nordeste, a indicação da ONU é fruto de um planejamento contínuo. A cidade conseguiu alinhar suas práticas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, provando que é possível crescer preservando a essência. O objetivo agora é seguir os passos de Antônio Prado, que obteve reconhecimento internacional semelhante, elevando o patamar do turismo gaúcho no cenário nacional.
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Fonte: g1.globo.com

