Um levantamento recente revelou o impacto econômico e produtivo que a ausência de controle de pragas, doenças e plantas daninhas pode causar na agricultura brasileira. A pesquisa, divulgada em São Paulo, dimensiona cenários de perdas severas na sojicultura e projeta reflexos diretos nos custos de alimentos essenciais para a população, evidenciando o papel estratégico da proteção de cultivos.
O trabalho foi desenvolvido por meio de uma cooperação técnica entre a Universidade Federal de Viçosa (UFV-MG) e a CropLife Brasil. A investigação utilizou modelos estatísticos avançados para traduzir quebras de produtividade no campo em escassez de oferta nos mercados interno e externo, mensurando o peso dessa cadeia produtiva na economia nacional.
Impacto na produção e repercussão econômica
De acordo com os dados apresentados, a simulação de um cenário extremo sem qualquer tipo de manejo fitossanitário indica uma perda média de 121,3 milhões de toneladas na safra. O valor econômico associado a esse volume suprimido chega a R$ 223,5 bilhões, números que demonstram a vulnerabilidade do setor diante de ameaças biológicas sem barreiras de contenção.
Além da queda na colheita, a pesquisa projeta uma redução na oferta que pode atingir cerca de 65% nos principais estados produtores avaliados. Para compensar eventual déficit de tal magnitude e tentar manter os patamares de suprimento, seriam necessários 33,5 milhões de hectares adicionais de terra, considerando a produtividade média de referência.
Metodologia e projeção de preços
O pesquisador Emerson Del Ponte, docente da UFV e doutor em Fitopatologia, explicou que a metodologia converteu quebras produtivas em escassez de mercado. Para isso, o modelo empregou elasticidades calibradas com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP).
Com esse arcabouço analítico, os pesquisadores calcularam uma alta potencial de até 49% no preço da soja. O reflexo dessa valorização transborda para a inflação geral e para a gôndola dos supermercados, com estimativa de contribuição de aproximadamente 0,26 ponto porcentual ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Efeitos colaterais na cadeia dos alimentos
Como a soja funciona como base fundamental para diversos setores do agronegócio, o encarecimento do grão reverbera rapidamente em outras cadeias produtivas. O farelo e o óleo derivados da oleaginosa integram diretamente a formulação de rações e a fabricação de produtos de consumo diário das famílias.
Conforme as projeções matemáticas do estudo, variações expressivas na matéria-prima geram aumentos em cascata:
- Elevação estimada de 4,6% no preço do óleo de soja.
- Aréscimo de 1,7% nos custos do leite ao consumidor.
- Crescimento de 1,1% no valor final dos ovos.
Comparativo entre níveis de controle
Para além do cenário limite de abandono tecnológico, o estudo simulou 10 mil ocorrências por estado, contrapondo a ausência de controle a práticas parciais e ótimas. Os resultados comprovam que a adoção de medidas fitossanitárias atenua drasticamente os prejuízos financeiros e alimentares.
No modelo de controle parcial, capaz de mitigar 40% dos danos previstos no cenário extremo, a perda média cai para 72,8 milhões de toneladas. Já sob o patamar de controle ótimo — que reduz em 80% os impactos negativos —, a quebra estimada recua para 24,3 milhões de toneladas, salvaguardando a estabilidade de preços e a segurança alimentar do país.

