Ao longo dos últimos anos de vida, Belchior encontrou em amigos e admiradores do Rio Grande do Sul o apoio que lhe permitiu manter a rotina discreta que escolheu após se afastar dos palcos. O icônico compositor completaria 80 anos, data que traz à tona lembranças de sua fase mais reclusa e misteriosa.
A trajetória do cantor no estado ajuda a explicar como ele viveu longe da exposição pública até morrer em Santa Cruz do Sul, em 2017. Entre 2009 e 2017, o artista passou por diferentes cidades gaúchas acompanhado da companheira, Edna Assunção. Em comum, os locais por onde passou tinham pessoas dispostas a acolhê-lo e a respeitar um pedido fundamental: preservar sua privacidade.
A acolhida e o anonimato em Santa Cruz do Sul
Em Santa Cruz do Sul, último endereço do cantor, Belchior chegou a viver em diferentes residências cedidas por amigos. Um dos anfitriões foi o radialista Dogival Duarte, admirador que se tornou próximo do músico durante sua passagem pela cidade.
“Ele morou um tempo comigo e não saiu mais daqui. Um dia recebi uma visita familiar muito grande e levei ele para outro local, porque minha casa não comportava todo mundo. Aí foi assim, ele foi ficando de casa em casa, fazendo um rodízio com amigos. Ele gostava muito daqui, é uma cidade mais pacata”, relatou Dogival em 2017.
A convivência com fãs e a proteção familiar
A estudante Marina Trindade também conviveu com o casal durante o período em que o músico esteve no interior gaúcho. Segundo ela, Belchior ficou por um período na residência da família e depois passou alguns meses em uma chácara em Sobradinho antes de retornar a Santa Cruz do Sul.
“A gente tinha medo que a polícia descobrisse que ele estava na minha casa. Ele acabou ficando na minha casa por um mês, e dois meses no sítio do meu pai”, contou.
Rotina de estudos, arte e silêncio no interior
Longe dos compromissos artísticos, o cantor mantinha uma rotina marcada por leitura, escrita, pintura e composição. Amigos relatavam que ele saía pouco e evitava aparições públicas, preferindo o recolhimento e o contato intelectual com poucos escolhidos que mantinham seu segredo a sete chaves.
Belchior morreu em 29 de abril de 2017, aos 70 anos, em Santa Cruz do Sul. Segundo a investigação da época, a morte ocorreu durante o sono em decorrência do rompimento da artéria aorta, causa considerada natural, encerrando o mistério sobre seu paradeiro mas deixando um legado eterno na cultura brasileira.

