Amyr Klink relembra trajetória para levar travessia do Atlântico ao cinema

Amyr Klink relembra trajetória para levar travessia do Atlântico ao cinema

Economia

Em 19 de setembro de 1984, Amyr Klink concluía a sua odisseia marítima. Vindo de Lüderitz, na Namíbia, o navegante desembarcou na Praia da Espera, em Salvador, após cruzar o Atlântico em cem dias. Nesse tempo, enfrentou as imprevisibilidades da natureza, lidou com os diversos temperamentos do mar e os seus habitantes, e teve que aprender a conviver com a solidão. Sobreviveu, com honras, para encarar mais de quatro décadas depois uma segunda jornada: a de levar a sua aventura para as telas de cinema.

Apesar de ter realizado um feito que, até hoje, ninguém conseguiu repetir, Amyr Klink acredita que nunca foi reconhecido como deveria no Brasil. O navegante aponta que existe um hiato geracional em relação ao seu feito histórico e que o público estrangeiro costuma demonstrar muito mais curiosidade sobre a travessia do que os compatriotas.

Do mar as telas

Não foi por falta de esforço de Amyr que a sua história acabou distante de novas gerações: apenas um ano após concluir a viagem, em 1985, o navegante publicou os seus registros no livro Cem Dias Entre Céu e Mar, obra que ganhou reedição pela Companhia das Letras. Nos anos seguintes, fez novas viagens e escreveu novos livros. Porém, é com a chegada de 100 Dias aos cinemas que Amyr Klink se reapresenta definitivamente aos brasileiros, em uma jornada de adaptação marcada por percalços.

Quem plantou a semente sobre a adaptação cinematográfica foi a fotógrafa Marina Bandeira, que tentou por décadas viabilizar o projeto ao lado de produtoras do país, sem sucesso inicial. A obra literária acumulou tentativas de filmagem ao longo dos anos, esbarrando em conflitos de roteiro e percalços de produção que atrasaram a concretização do projeto audiovisual.

breno silveira e os desafios do roteiro

Precursor do Cinema de Retomada no Brasil e diretor de produções de destaque, Breno Silveira foi um dos primeiros cineastas a se interessar pelo desafio de adaptar o livro. O processo enfrentou sucessivas trocas de roteiristas e impasses criativos que adiaram o filme, além de perdas trágicas na equipe e o falecimento do próprio diretor durante o desenvolvimento de outras produções cinematográficas.

Apesar de nunca ter concluído a cinebiografia de Amyr, Breno Silveira dirigiu o documentário para a televisão Amyr Klink: Mar Sem Fim, lançado em 2001, retratando a expedição marítima do navegador pela Antártida. A história só retomaria força anos mais tarde, com a articulação de novos produtores e a entrada do diretor Carlos Saldanha no projeto.

um heroi brasileiro nas mãos de carlos saldanha

A jornada para tirar a obra do papel avançou quando a produtora Paula Cosenza articulou a entrada de Carlos Saldanha, conhecido por dirigir grandes animações de sucesso internacional. O cineasta apaixonou-se pela premissa de valorizar uma narrativa de superação nacional fora dos eixos tradicionais de biografias musicais ou dramáticas históricas.

Saldanha optou por um rigor técnico e estético impressionante para traduzir a imensidão do oceano e o isolamento do navegador para a linguagem cinematográfica. O resultado final surpreendeu positivamente o próprio protagonista, que celebrou a sensibilidade e o respeito com que sua viagem histórica foi traduzida para o universo do cinema nacional.