Boicote a empresas de esquerda vira foco de Nikolas após divergência sobre carta de Flávio

Política

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) adotou uma postura diferente da maioria das lideranças de oposição após o resultado das eleições presidenciais disputadas no dia 25 de outubro de 2026. Enquanto importantes aliados políticos de Flávio Bolsonaro (PL) optaram por se distanciar da carta divulgada pelo senador a partir de Miami, o parlamentar mineiro concentrou suas atenções na articulação de um movimento de retaliação econômica contra apoiadores do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em vez de condenar ou comentar formalmente o teor do documento publicado pelo filho do ex-presidente, no qual Flávio inicialmente se autoproclamava “verdadeiro presidente eleito”, o deputado preferiu fazer piadas sobre o episódio no X. Na quarta-feira (28), Nikolas questionou se estaria liberado debochar de pessoas que se autodeclaram algo, em uma publicação que alcançou mais de 6 milhões de visualizações e 127 mil curtidas na plataforma.

Estratégia de boicote ganha força nas redes sociais do deputado

O foco principal da atuação de Nikolas nas plataformas digitais passou a ser o engajamento em favor do cerco financeiro a empresários de esquerda. No Instagram, um vídeo gravado pelo parlamentar em apoio ao boicote contra estabelecimentos de eleitores de Lula atingiu a marca de 2,9 milhões de curtidas.

Na quinta-feira (29), o deputado voltou a inflamar seus seguidores ao publicar um vídeo curto com a mensagem “faz o L e engole o choro”. A postagem foi feita em resposta a um perfil de paródia que exibia uma mulher reclamando da perda de clientes de direita em seu comércio. Anteriormente, o deputado já havia sugerido que comerciantes alinhados à esquerda colocassem a bandeira do PT na entrada de suas lojas para facilitar a identificação dos alvos da ação de retaliação.

A atuação ostensiva de Nikolas na Câmara dos Deputados e no ambiente virtual contrasta diretamente com a orientação adotada pela cúpula do próprio Partido Liberal e por governadores aliados, que buscaram arrefecer os ânimos logo após a apuração oficial.

Divergência entre lideranças da direita sobre o manifesto de Miami

A linha adotada por Nikolas vai na contramão de figuras centrais do bolsonarismo. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, declarou publicamente que ninguém na legenda aprovou o texto da carta lançada por Flávio e ressaltou que o partido precisa olhar para a frente. No mesmo sentido, o senador Rogério Marinho (PL-RN), que atuou como coordenador da campanha, afirmou que não é possível alegar fraude no processo eleitoral por absoluta falta de provas.

Entre os governadores que apoiaram a candidatura oposicionista, a ordem também foi de aceitação das urnas. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), declarou que compreende a indignação demonstrada pelo senador, mas reforçou que o único caminho institucional cabível é respeitar o resultado democrático. A senadora e ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP-MS) seguiu a mesma linha e defendeu expressamente o respeito às urnas.

O papel de Nikolas na reta final do Bloco do 22

A projeção de Nikolas como uma das vozes mais radicais do movimento ocorre após uma intensa participação na campanha do segundo turno. Depois de ser cobrado publicamente pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) por uma suposta falta de engajamento no primeiro turno, o parlamentar assumiu o protagonismo das mobilizações de rua do senador.

Ele liderou os atos batizados de “Bloco do 22”, movimentando trios elétricos, jingles e grandes concentrações de militantes que ditaram o tom da agenda final da candidatura de Flávio Bolsonaro. Foi nesse contexto que o candidato derrotado viajou para Miami e divulgou a carta polêmica. No documento original, o senador usou um tom semelhante ao adotado pelo opositor venezuelano Juan Guaidó em 2019, autodeclarando-se o “verdadeiro presidente eleito”. Em uma edição posterior postada em redes sociais, o trecho foi modificado para “líder do Brasil”.

Procurado por meio de sua assessoria de imprensa para comentar sua postura e a divergência com a cúpula partidária, o deputado Nikolas Ferreira não enviou resposta até a publicação desta reportagem.