Da neurologia à arte têxtil: Cibele Foletto transforma experiências de vida em expressão artística

Da neurologia à arte têxtil: Cibele Foletto transforma experiências de vida em expressão artística

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Artista de Bagé encontrou na aquarela e nos tecidos um novo caminho profissional, inspirado pela natureza, pelas memórias e pela força das conexões humanas.

A pandemia trouxe mudanças profundas para a vida de muitas pessoas. Para Cibele Foletto, médica neurologista de Bagé, no Rio Grande do Sul, aquele período também representou o início de uma transformação profissional. Em meio às incertezas e à redução das atividades no consultório, ela encontrou na aquarela uma maneira de buscar tranquilidade e descobrir uma nova paixão: a arte.

O que começou como uma atividade para ocupar o tempo acabou despertando questionamentos sobre escolhas, prioridades e projetos de vida. Depois de construir uma carreira reconhecida na neurologia, Cibele decidiu abrir espaço para um novo caminho. Começou pela pintura em aquarela e, gradualmente, aproximou-se da arte têxtil, linguagem que hoje ocupa lugar central em sua produção.

Atualmente, desenvolve trabalhos que combinam tecidos, bordados, aquarelas, fibras e diferentes texturas. Suas criações carregam referências da natureza, das viagens, das experiências pessoais e das memórias afetivas. Entre suas inspirações estão as árvores e as amonites, fósseis de antigos moluscos marinhos que conheceu em Verona, na Itália, cidade onde já viveu e pela qual mantém uma ligação especial.

A espiral como símbolo de transformação

Uma das características recorrentes de sua produção é a espiral, forma que encontra na natureza e que representa, em seu processo criativo, os ciclos, o movimento, a transformação e a continuidade da vida.

Essa simbologia também está presente em trabalhos que estabelecem conexões entre arte e relações humanas. Uma de suas criações mais significativas recebeu o nome de Ninguém Solta a Mão de Ninguém e nasceu após um encontro da comunidade criativa da qual participa.

“Um dos meus trabalhos em espiral nasceu depois de uma reunião da comunidade criativa da qual participo. Criei uma composição de pessoas de mãos dadas e a batizei de Ninguém Solta a Mão de Ninguém. A obra foi tão bem recebida que hoje está exposta na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), na Sala do Silêncio, um espaço destinado a proporcionar momentos de tranquilidade e acolhimento aos estudantes autistas.”

A presença da obra na universidade representa um reconhecimento importante de uma produção que ultrapassa a dimensão estética e encontra espaço também no acolhimento e na experiência coletiva.

Arte, diversidade e participação

Outro trabalho que revela a sensibilidade da artista é Força, uma composição dedicada à união feminina. A proposta inicial ganhou novos significados depois de uma conversa com sua filha, que observou não se sentir representada na obra porque as figuras femininas apareciam todas de vestido.

A partir dessa contribuição, Cibele reformulou a composição, incorporando mulheres de diferentes etnias e personagens vestindo calças e blusas. A mudança reforçou uma ideia presente em sua maneira de criar: a diversidade e a liberdade de cada mulher expressar sua própria identidade.

Para a artista, a criação não é um processo fechado. As sugestões, os questionamentos e as experiências compartilhadas podem transformar uma ideia inicial e contribuir para que o trabalho encontre novos caminhos.

O valor do trabalho artesanal em um mundo digital

Cibele identifica principalmente entre o público feminino pessoas interessadas em arte, cultura, atualidades e trabalhos que valorizam a produção manual. Em uma sociedade cada vez mais digital e acelerada, acredita que existe espaço para peças que carregam tempo, dedicação, identidade e singularidade.

Sua atuação também acompanha as possibilidades do mercado digital. O atendimento acontece presencialmente e online, permitindo que suas criações alcancem pessoas de diferentes localidades, mesmo estando baseada em uma cidade do interior gaúcho.

Mais do que produzir peças decorativas, sua proposta é criar trabalhos que despertem emoções, contem histórias e estabeleçam vínculos com quem os contempla.

A trajetória de Cibele Foletto demonstra que a reinvenção profissional pode nascer de uma descoberta pessoal. Entre tecidos, bordados, aquarelas e formas inspiradas na natureza, a artista construiu uma nova maneira de expressar suas experiências e compartilhar sua visão de mundo.

Sua história também deixa uma reflexão: nunca é tarde para descobrir novas possibilidades, desenvolver talentos e construir uma trajetória alinhada com aquilo que realmente dá sentido à vida.

Foto:Arquivo pessoal