A criação de um marco regulatório global focado no combate às secas enfrentará mais um revés e será adiada. Embora discursos oficiais mantenham um tom de esperança, negociadores presentes na 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), sediada em Ulaanbaatar, na Mongólia, confirmam que o consenso sobre o tema não será alcançado nesta edição.
Resistência de países ricos e barreiras geopolíticas
O encerramento oficial do evento marca a ausência de um pacto definitivo, com forte oposição liderada pelos Estados Unidos e pela União Europeia, além do alinhamento de nações sul-americanas como Argentina, Chile e Paraguai. O cenário repete o ocorrido na COP16, realizada anteriormente em Riad, na Arábia Saudita, resultando apenas em uma decisão procedimental que empurra as discussões para a COP18, prevista para 2028 no Egito.
Enquanto o bloco africano exige há pelo menos três conferências um mecanismo multilateral financeiramente robusto para mitigar a escassez hídrica — que afeta historicamente regiões vulneráveis —, as nações desenvolvidas rejeitam obrigações financeiras formais. A relutância europeia e norte-americana reflete tanto restrições orçamentárias internas quanto uma resistência sistêmica a acordos multilaterais. O Brasil atuou como mediador para evitar a exclusão total do assunto dos documentos oficiais, defendendo a permanência da pauta para o futuro.
Urgência climática e a necessidade de prevenção
Dados da UNCCD revelam que a intensidade, a frequência e a abrangência espacial das secas cresceram quase 30% desde o ano 2000. Especialistas apontam que a visão do fenômeno como um desastre natural imprevisível está obsoleta, exigindo uma transição urgente para a gestão preventiva de riscos sistêmicos que afetam desde o comércio internacional até a segurança alimentar global.
Alternativas financeiras e inovação tecnológica na COP17
Diante do travamento do acordo oficial, frentes paralelas avançam na mobilização de recursos. A Aliança de Riad para Resiliência Global à Seca consolidou um fundo com aportes bilionários de instituições como o Banco Islâmico de Desenvolvimento e a Arábia Saudita para amparar 70 países em desenvolvimento.
Paralelamente, o governo de Luxemburgo e a UNCCD lançaram o Fundo de Investimento para Resiliência à Seca (Drif), desenhado para atrair capital privado por meio de financiamento catalítico, mirando uma arrecadação de até US$ 400 milhões.
Nova fase do Observatório de Resiliência
A conferência também serviu de palco para o lançamento da Fase 2 do Observatório Internacional de Resiliência à Seca (Idro). Desenvolvida em parceria com a Universidade de Yale, a plataforma digital utiliza inteligência artificial e o Índice de Resiliência à Seca (DRI) para auxiliar governos na formulação de políticas públicas mais assertivas.
Apesar do cenário geopolítico desafiador e dos sucessivos adiamentos diplomáticos, autoridades ambientais apostam na pressão contínua da sociedade civil e no avanço de ferramentas tecnológicas para garantir que o enfrentamento às secas continue avançando globalmente.
