Direita fluminense busca no legado de Carlos Lacerda uma alternativa ao bolsonarismo

Direita fluminense busca no legado de Carlos Lacerda uma alternativa ao bolsonarismo

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O retorno ao lacerdismo como estratégia política

Em um cenário de profunda instabilidade institucional no Rio de Janeiro, setores da direita fluminense que buscam se distanciar do bolsonarismo têm resgatado a figura de Carlos Lacerda (1914-1977). O ex-governador da antiga Guanabara, conhecido por sua retórica inflamada e combate ferrenho à corrupção, tornou-se o símbolo central de um movimento que tenta redefinir a identidade conservadora no estado.

A crise política local, marcada por um ex-governador inelegível, uma gestão interina exercida por um desembargador e a prisão de três parlamentares em apenas sete meses, criou um vácuo de liderança. Para articuladores políticos, evocar o legado de Lacerda é uma tentativa de conectar o eleitorado a um período de suposta prosperidade e eficiência administrativa, contrapondo-se ao desgaste das figuras políticas atuais.

A proposta de desfavelização e o projeto Missão

Um dos pilares desse resgate é a plataforma do candidato à Presidência Renan Santos, do partido Missão. O programa de governo propõe uma política de “desfavelização” que ecoa diretamente as iniciativas de Lacerda na década de 1940. O projeto, batizado pelo partido como “A Batalha do Brasil”, busca remover ocupações irregulares e promover a regularização fundiária, espelhando a histórica “Batalha do Rio de Janeiro” conduzida pelo ex-governador.

A estratégia não se limita ao discurso, mas busca inspiração estética e prática na gestão de Lacerda entre 1960 e 1965. Candidatos como Victor Antoun, que concorre a deputado federal pelo Missão, defendem abertamente a retomada de uma visão de estado que priorize grandes obras de infraestrutura. Antoun afirma que a atual administração fluminense apenas “administra a decadência”, enquanto o modelo lacerdista ofereceria uma marca de gestão mais impactante para o país.

Controvérsias e o peso da história

Embora o grupo político busque inspiração na capacidade realizadora de Lacerda, o histórico do ex-governador é alvo de críticas severas por parte de opositores. Lacerda é frequentemente lembrado por seu papel central na articulação de conspirações e pelo apoio dado ao golpe militar de 1964, embora tenha rompido com o regime pouco tempo depois, ao perceber que as eleições diretas seriam postergadas.

O advogado Bernardo Santoro, ex-presidente do Instituto Rio Metrópole (IRM), é um dos nomes que se identifica com a postura crítica de Lacerda em relação aos rumos da política nacional. A tentativa de relançar a Tribuna da Imprensa, jornal fundado por Lacerda, é outro movimento que visa consolidar esse resgate simbólico, unindo a tradição do jornalismo de denúncia com as novas pautas da direita não bolsonarista.

O debate sobre o legado de Lacerda reflete a busca da direita brasileira por uma identidade que consiga dialogar com o conservadorismo sem estar estritamente atrelada aos movimentos dos últimos anos. Enquanto o projeto avança, a sociedade fluminense observa se esse retorno ao passado será capaz de oferecer soluções reais para os problemas contemporâneos do estado.

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Fonte: redir.folha.com.br