Como a inteligência artificial ajuda a traduzir o imaginário político das mulheres brasileiras

Como a inteligência artificial ajuda a traduzir o imaginário político das mulheres brasileiras

Política

A tecnologia como lente para o desejo feminino

A representação do eleitorado feminino no Brasil ganhou uma nova camada de profundidade técnica e simbólica. Em um projeto que une fotojornalismo e tecnologia, a série Voto das Mulheres, assinada pela fotojornalista Gabriela Biló, utiliza a técnica de múltipla exposição para fundir retratos reais com imagens geradas por inteligência artificial. O objetivo é dar contorno visual ao imaginário de 15 eleitoras brasileiras, de diferentes origens, raças e inclinações políticas, sobre o futuro do país.

As mulheres compõem 51,5% da população brasileira e 53% do eleitorado nacional. Apesar do peso numérico, elas ainda enfrentam desafios significativos de representação, ocupando apenas 18% das cadeiras na Câmara dos Deputados e 15% no Senado após o pleito de 2022. Além disso, o público feminino concentra a maior parcela de indecisos, representando 29% contra 16% entre os homens, o que torna a compreensão de suas demandas um ponto central para o debate político rumo a 2026.

Desafios e o combate ao preconceito algorítmico

A produção das imagens revelou um desafio técnico e ético comum no uso de ferramentas de IA: o viés algorítmico. Durante as etapas iniciais, ao inserir termos como “Brasil” e “mulheres” nos comandos, o sistema Midjourney tendia a gerar representações estereotipadas, frequentemente associando o país a cenários de pobreza ou a figuras femininas em situações de tristeza, mesmo sem tais comandos terem sido solicitados.

Para contornar esse obstáculo, a equipe precisou refinar a estratégia de criação. Os termos que disparavam os estereótipos foram omitidos e os comandos foram traduzidos para o inglês, idioma nativo da maioria das IA’s generativas, o que permitiu acessar uma base de dados mais ampla e diversa. Cada imagem final foi validada pelas entrevistadas, garantindo que a representação estivesse alinhada com suas visões pessoais e expectativas sobre o Brasil.

Técnica de múltipla exposição e o peso do voto

O processo criativo culminou em uma técnica de sobreposição visual. Após a geração das imagens por IA, que ilustram o imaginário de cada mulher, a fotojornalista fotografou a tela do computador utilizando o mesmo fotograma para capturar o rosto da entrevistada. O resultado é uma fusão onde a pessoa e o seu desejo de país ocupam o mesmo espaço físico na imagem.

Essa escolha estética carrega uma mensagem democrática: a ideia de que, assim como na urna, cada mulher possui o mesmo espaço e o mesmo peso na construção do futuro nacional. O projeto busca, assim, humanizar dados estatísticos e trazer para o centro da discussão o que realmente importa para as eleitoras em um cenário de polarização política, onde o Datafolha de 8 a 10 de setembro apontou uma vantagem de 11 pontos para Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) entre o público feminino.

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Fonte: redir.folha.com.br