Uso de antimicrobianos na pecuária: entenda os impactos para o mercado e o produtor

Uso de antimicrobianos na pecuária: entenda os impactos para o mercado e o produtor

Agro DESTAQUES Geral

A pressão da União Europeia por padrões sanitários mais rigorosos na produção de carne bovina brasileira colocou o uso de antimicrobianos no centro de um debate estratégico para o agronegócio nacional. A possibilidade de restrições mais severas, ou até a proibição de certas substâncias, levanta dúvidas sobre a competitividade do setor e a viabilidade econômica para o pecuarista brasileiro, que busca equilibrar exigências internacionais com a eficiência produtiva no campo.

Desafios operacionais e a adaptação do setor

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) monitora de perto as exigências do bloco europeu, que já restringiu a entrada de carne brasileira devido a divergências sobre o controle de insumos veterinários. Segundo Alcides Torres, CEO da Scot Consultoria, o veto ao uso de determinadas substâncias no rebanho nacional é uma possibilidade real, caso os produtores não se alinhem às normas de segurança sanitária já estabelecidas.

O impacto dessa medida não será uniforme. Enquanto grandes grupos frigoríficos, com operações globais e plantas em países vizinhos como o Uruguai, possuem maior flexibilidade logística para redirecionar fluxos comerciais, os frigoríficos de pequeno e médio porte enfrentam um cenário mais complexo. Essas empresas, com maior dependência do mercado europeu e menor capacidade de adaptação, podem sofrer com a restrição de acesso a um dos mercados que melhor remunera o produto brasileiro.

Impactos na rotina do pecuarista e rastreabilidade

Para o produtor rural, a transição para um modelo livre de certas substâncias exige investimentos em rastreabilidade total e protocolos sanitários mais rigorosos. A preocupação central reside no aumento dos custos de produção e na burocracia necessária para garantir a conformidade. Muitos pecuaristas temem que a imposição reduza a competitividade daqueles que não possuem contratos de bonificação específicos para o mercado europeu.

Contudo, o mercado já começa a se ajustar. A indústria de nutrição animal tem investido em alternativas como probióticos, ácidos orgânicos e óleos essenciais, focando em biossegurança e imunonutrição. Paralelamente, a indústria farmacêutica defende a segregação de cadeias, argumentando que as exigências restritivas deveriam se aplicar apenas aos produtores que exportam para a União Europeia, evitando um banimento generalizado no mercado interno.

Perspectivas para a arroba e o mercado internacional

Apesar das incertezas, a análise de mercado indica que o preço da arroba do boi gordo deve manter tendência de alta no segundo semestre, com destaque para o quarto trimestre. A União Europeia representa uma fatia pequena das exportações brasileiras, entre 3,5% e 5%, enquanto a China e os Estados Unidos seguem como os principais destinos da carne nacional. Fatores como a demanda interna aquecida pelo 13º salário e o impacto de fenômenos climáticos, como o El Niño, também desempenham papéis fundamentais na formação de preços.

Embora o volume financeiro exportado para a Europa — cerca de US$ 1 bilhão ao ano — seja modesto frente aos US$ 18 bilhões totais do setor, a perda desse mercado é vista como um risco estratégico. A manutenção do status sanitário é vital para abrir portas em outros mercados exigentes, como Japão e Coreia do Sul. O “boi Europa”, assim como o “boi China”, continuará sendo uma categoria diferenciada, com ágio sobre o preço pago ao produtor, reforçando que a qualidade e a conformidade seguem como os principais diferenciais competitivos da pecuária brasileira.

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Fonte: canalrural.com.br