A XP Asset, uma das principais gestoras de recursos do Brasil, está implementando uma nova abordagem para lidar com as mudanças no mercado financeiro, que se tornou mais rápido e volátil. Após três anos desafiadores para a indústria de multimercados, a empresa decidiu revisar suas estratégias de gestão de fundos, buscando se adaptar a um ambiente em constante transformação.
Bruno Marques, gestor de multimercado macro da XP Asset, que administra mais de R$ 290 bilhões em ativos, destaca que a nova estratégia dará maior ênfase à macroeconomia, especialmente em relação aos juros e seus derivativos. Além disso, a gestora está reforçando o controle de risco e aceitando períodos mais longos sem posições relevantes. “Antes, as tendências permaneciam por mais tempo. Agora, você tem que entrar, capturar o alfa e sair. Por isso queremos ficar mais tempo zerados”, afirma Marques em entrevista ao portal Seu Dinheiro.
O foco agora é deixar de lado a obrigação de estar sempre posicionado, aguardando momentos em que a relação entre risco e retorno seja mais favorável. “A graça do multimercado é poder escolher a melhor prova para fazer. Quando vemos uma assimetria, tentamos capturá-la”, explica.
Transformações na indústria de multimercados
Marques descreve os últimos três anos como uma “tempestade perfeita” para os multimercados. A mudança nas regras de tributação dos fundos exclusivos diminuiu a atratividade desses investimentos, enquanto a alta dos juros tornou a renda fixa uma opção mais competitiva. Com o aumento da oferta de produtos isentos, muitos investidores migraram para outras classes de ativos.
Além disso, a indústria de multimercados apresentou resultados insatisfatórios em diversos casos, o que contribuiu para a saída de capital desses fundos. Marques acredita que a eventual queda dos juros no Brasil não será suficiente para trazer os investidores de volta aos multimercados imediatamente. “Precisamos voltar a mostrar consistência para o investidor retornar”, enfatiza.
O gestor observa que, durante muito tempo, era possível encontrar uma tese, montar uma posição e esperar que o mercado convergisse para essa visão. Contudo, o ambiente atual se tornou mais desafiador, em parte devido à ascensão dos fundos multi-strategy, que cresceram de US$ 90 bilhões em 2019 para mais de US$ 1 trilhão atualmente. Esses fundos têm um impacto significativo na formação de preços nos mercados de renda fixa, contribuindo para a volatilidade.
“Às vezes, todos estão na mesma direção, comprimindo a volatilidade, e de repente ocorre um movimento forte na direção oposta e todos estopam ao mesmo tempo”, explica Marques, referindo-se ao fenômeno conhecido como degrossing, que amplifica os movimentos de preços.
A nova abordagem da XP Asset e suas implicações para os investidores
Para enfrentar os desafios do novo cenário, a XP Asset está reforçando sua equipe dedicada a juros no Brasil e na América Latina, além de aprimorar as áreas econômica e de inteligência artificial. A gestora também alterou sua abordagem em momentos de estresse, incorporando testes de estresse ao processo de gestão para entender melhor os impactos potenciais de movimentos de redução de posições.
Essa mudança também se reflete na estrutura de taxas. O fundo, que anteriormente cobrava 2% de taxa de administração e 20% de performance, agora adota uma nova estrutura de 1% de administração e 30% sobre o que exceder o benchmark. Essa decisão está alinhada com a estratégia de estar menos exposto ao mercado, o que justifica uma taxa de administração mais baixa durante períodos de inatividade.
Perspectivas para o Brasil e o papel dos multimercados
Marques acredita que o Brasil viveu uma fase de “zona de mediocridade”, onde os fundamentos se deterioraram, mas sem uma ruptura significativa. Ele alerta que essa situação não é sustentável a longo prazo: “ou faremos um ajuste positivo ou a conta chegará e o país explodirá”.
Nesse contexto, os fundos multimercados podem se destacar. Com a capacidade de mudar rapidamente de posição, eles podem se beneficiar de uma melhora no cenário ou se proteger em caso de deterioração. “Nesses dois cenários, é importante ter fundos multimercados, pois eles têm velocidade para estar à frente desses movimentos”, conclui.
O futuro da indústria de multimercados
A transformação no mercado pode levar a uma reestruturação na própria indústria de fundos multimercados. Marques observa que a situação está mais difícil e que pode haver um excesso de gestoras no passado. “Estamos passando por um momento de consolidação, com certeza”, afirma.
Gestoras menores enfrentam desafios significativos, como baixa performance e resgates, enquanto as maiores também precisam revisar seus modelos. No entanto, o tamanho não é necessariamente uma vantagem; um crescimento desmedido pode dificultar a gestão ao limitar a capacidade de executar determinadas posições.
Marques conclui que não existe uma fórmula única para sobreviver nesta nova fase. Cada gestora deve encontrar o modelo que melhor se adapta ao seu estilo de investimento. “Cabe a nós, da indústria, ter a humildade de esperar a performance voltar”, finaliza.
Fonte: seudinheiro.com
