A nova rota russa: como Florianópolis se tornou o refúgio de imigrantes em busca de recomeço

A nova rota russa: como Florianópolis se tornou o refúgio de imigrantes em busca de recomeço

DESTAQUES Economia

O cenário gastronômico e cultural de Florianópolis tem ganhado contornos eslavos nos últimos anos. O que começou como um movimento discreto de famílias em busca de segurança transformou a capital catarinense em um polo de acolhimento para cidadãos russos que, diante das incertezas geopolíticas globais, decidiram reconstruir suas vidas no Brasil. Longe das fronteiras de conflito, profissionais das mais diversas áreas — de topógrafos a programadores — encontraram na “Ilha da Magia” não apenas um refúgio, mas um terreno fértil para o empreendedorismo.

Dados do Sistema de Registro Nacional Migratório revelam que Santa Catarina consolidou-se como o principal destino desses imigrantes. Desde o início do conflito entre Rússia e Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022, o estado registrou 1.317 pedidos de residência, superando a marca de São Paulo. Florianópolis, especificamente, concentra quase 90% desse contingente, abrigando mais de 1.100 cidadãos russos que buscam estabilidade, clima ameno e a possibilidade de garantir um futuro mais seguro para seus filhos.

O fenômeno do turismo de parto e a busca por cidadania

Um dos motores desse fluxo migratório é o chamado “turismo de parto”. A legislação brasileira, baseada no princípio do jus soli, concede a cidadania automática a qualquer criança nascida em solo nacional. Para famílias russas, esse é um diferencial estratégico: o passaporte brasileiro é significativamente mais forte que o russo, permitindo acesso facilitado a diversos países, incluindo membros da União Europeia, sem as restrições impostas ao documento de origem dos imigrantes.

Os números refletem essa tendência. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, entre 2020 e julho de 2026, 492 crianças de mães russas nasceram em Santa Catarina. O salto estatístico é expressivo: após registrar apenas 13 partos em 2022, o número subiu para 113 em 2023, um crescimento de 769%. Em 2024, o recorde foi batido com 123 nascimentos, consolidando a capital catarinense como um ponto de referência para famílias que veem no Brasil a segurança que o passaporte russo, atualmente na 48ª posição no ranking global de mobilidade da Henley & Partners, não oferece.

Empreendedorismo e a adaptação ao mercado local

A presença russa em Florianópolis transcende a demografia e já impacta a economia local. Registros da Junta Comercial de Santa Catarina (Jucesc) indicam que, desde janeiro de 2022, 141 empresas foram abertas na capital com pelo menos um sócio de nacionalidade russa. Esse movimento é visível em bairros como Jurerê, Canasvieiras e Campeche, onde pequenos negócios, cafés e estúdios de bem-estar começam a integrar a cultura eslava ao cotidiano florianopolitano.

Eugênio Trifonov, 39 anos, é um exemplo dessa reinvenção. Topógrafo na Rússia, ele transformou um hobby em negócio ao abrir o café Kiss My Cake. “Comecei a fazer tortas russas porque tinha saudades e porque as sobremesas brasileiras são muito doces”, relata. O sucesso foi imediato, atraindo tanto a comunidade russa quanto brasileiros curiosos pelas receitas tradicionais, como o bolo de mel Medovik e a sopa Borsch. A formalização, segundo ele, foi um passo natural, facilitado pela estrutura burocrática brasileira, que ele considera acessível para quem deseja empreender.

Integração cultural e novos horizontes

Além da gastronomia, o setor de serviços também tem sido um caminho para a integração. Anastasia Rossa, 31 anos, fundou o estúdio Soul Me, onde oferece aulas de yoga e terapias sonoras. O espaço, que atende tanto russos quanto brasileiros, reflete a diversidade do público que se estabelece na cidade. Para Anastasia, a mudança para Florianópolis foi uma escolha pautada pela qualidade de vida e segurança, elementos que permitiram que ela deixasse para trás uma carreira no mercado de luxo russo para se dedicar ao bem-estar na capital catarinense.

A comunidade, embora mantenha laços fortes através de grupos digitais que reúnem milhares de membros, demonstra um desejo claro de permanência e adaptação. Enquanto o cenário internacional permanece volátil, Florianópolis segue como um porto seguro, onde a mistura de sotaques e tradições continua a redesenhar a identidade urbana da cidade. Continue acompanhando o Conexrs para mais reportagens sobre os movimentos migratórios e o desenvolvimento econômico que moldam a nossa região e o país.

Fonte: seudinheiro.com