A indústria brasileira de biocombustíveis está prestes a ganhar um aliado tecnológico de peso. Pesquisadores do Laboratório de Genômica e bioEnergia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma levedura geneticamente modificada capaz de elevar significativamente a eficiência produtiva do etanol de milho. A inovação ataca um dos gargalos históricos do setor: o desperdício de amido durante o processo de fermentação.
O avanço, que já foi protegido e licenciado para a empresa Bionfood, representa um salto na biotecnologia aplicada ao campo. Ao otimizar a conversão da matéria-prima, a tecnologia permite que as usinas extraiam mais combustível utilizando o mesmo volume de grãos, um fator que pode impactar diretamente a competitividade do setor no mercado global.
Bioinformática na busca por enzimas eficientes
O desafio central para os cientistas, coordenados pelo professor Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, era contornar a limitação das enzimas convencionais. Tradicionalmente, a quebra do amido do milho em glicose exige etapas separadas com alfa-amilase, que atua em temperaturas superiores a 90°C, e glucoamilase, que trabalha na fase de fermentação. O problema é que a alfa-amilase comum não resiste às temperaturas mais baixas da fermentação, resultando em cerca de 10% de amido desperdiçado.
Para resolver essa ineficiência, a equipe utilizou ferramentas avançadas de bioinformática e análise computacional. O objetivo era encontrar, em vastos bancos de dados genômicos, uma enzima com características raras: a capacidade de atuar em temperaturas próximas aos 30°C. Segundo o pesquisador Marcelo Falsarella Carazzolle, a busca foi minuciosa, já que a grande maioria das enzimas conhecidas opera apenas em altas temperaturas.
Impacto na produtividade e redução de custos
Após identificar a enzima ideal, os cientistas inseriram os genes correspondentes em uma levedura industrial. O resultado foi uma linhagem híbrida capaz de produzir tanto a nova alfa-amilase quanto uma glucoamilase própria. Nos testes de bancada, a cepa modificada dispensou totalmente a necessidade de adição externa de enzimas comerciais, simplificando o processo industrial.
Além da economia com insumos, a capacidade da levedura de processar o amido que antes era descartado promete um aumento real no rendimento por tonelada de milho. Este ganho de produtividade é estratégico para o Brasil, onde o etanol de milho já responde por cerca de 30% da produção nacional do combustível, consolidando-se como um pilar de sustentabilidade e segurança energética.
Validação industrial e o futuro do setor
Atualmente, a tecnologia atravessa uma fase crucial de transição: a validação em escala industrial. A parceria com a Bionfood permite que os pesquisadores testem a levedura em condições reais de usina, utilizando amido hidrolisado de processos comerciais. O rigor nesta etapa é fundamental para garantir que os resultados obtidos em laboratório se traduzam em viabilidade econômica e operacional para as empresas do setor.
O etanol de milho tem ganhado espaço no Brasil devido à sua logística facilitada, já que o grão, ao contrário da cana-de-açúcar, pode ser armazenado em silos por longos períodos sem perder qualidade. Com a implementação desta nova tecnologia, o setor reforça sua capacidade de inovação, transformando ciência de alto nível em soluções práticas para o agronegócio. O Conexrs segue acompanhando os desdobramentos dessa pesquisa e os impactos das inovações tecnológicas no desenvolvimento do país. Continue conosco para se manter informado sobre as principais tendências e avanços que moldam a economia e a sociedade brasileira.
Fonte: canalrural.com.br
