A crise que assombra as democracias contemporâneas, observada tanto em nações emergentes quanto em potências consolidadas, não deveria ter sido uma surpresa para a academia. Essa é a avaliação de Sheri Berman, professora da faculdade Barnard, nos Estados Unidos, e uma das vozes mais respeitadas no estudo dos sistemas democráticos. Em uma análise recente publicada no Journal of Democracy, a cientista política defende que o otimismo excessivo com a estabilidade institucional cegou especialistas diante de sinais claros de insatisfação popular.
A miopia acadêmica diante da erosão democrática
Segundo Berman, o erro fundamental de grande parte dos estudiosos foi categorizar democracias ocidentais como sistemas imunes a retrocessos. Por décadas, países da Europa Ocidental e os Estados Unidos foram vistos como modelos estáveis, onde o aprimoramento seria a única trajetória possível. Essa visão, contudo, ignorou como a crescente frustração social e econômica poderia minar, de forma estrutural, o apoio da população às instituições vigentes.
A pesquisadora traça um paralelo direto entre a eficiência política e a confiança pública. Para ela, a democracia funciona como um contrato de prestação de serviços: quando os representantes falham em diagnosticar e resolver problemas básicos da sociedade, a irritação do eleitorado torna-se inevitável. Esse descontentamento acumulado, ignorado por muitos analistas, serviu como o combustível necessário para a ascensão de figuras que desafiam o status quo democrático.
O apelo do populismo e a vulnerabilidade institucional
A análise de Berman destaca que a vulnerabilidade das instituições foi subestimada. Mesmo com o aumento da insatisfação registrado em pesquisas comparativas, a academia não previu que o sistema seria tão suscetível a rupturas. Quando os cidadãos passam a acreditar que as engrenagens democráticas não trabalham a seu favor, tornam-se naturalmente mais receptivos ao discurso de líderes populistas ou extremistas, que prometem soluções rápidas para problemas complexos.
A cientista política, que prepara um novo livro sobre o tema, enfatiza que o cenário atual é um reflexo de desafios sociais que não foram devidamente endereçados. A crise não é apenas um fenômeno político isolado, mas o resultado de uma desconexão profunda entre a classe política e as demandas reais da população, que se sente negligenciada pelos mecanismos tradicionais de representação.
Caminhos para a superação da crise
Para que o ciclo de retrocesso seja interrompido e uma nova onda de democratização ganhe força, Berman aponta que não basta apenas a frustração com o atual modelo. É necessário um movimento de conscientização em duas frentes. Primeiro, o eleitorado precisa perceber, na prática, que líderes autoritários e populistas falham em entregar as promessas feitas durante suas campanhas.
Em segundo lugar, a pesquisadora sublinha a importância da oferta de alternativas viáveis. A oposição aos movimentos autoritários precisa demonstrar, de forma clara e convincente, que possui projetos capazes de superar os problemas que geraram a crise de confiança. Sem essa percepção de que existe um caminho melhor e mais eficiente, a democracia continuará enfrentando dificuldades para recuperar seu prestígio e estabilidade perante a opinião pública.
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Fonte: redir.folha.com.br
