A decisão de autorizar a doação de órgãos após a confirmação de morte encefálica é um dos momentos mais delicados e complexos enfrentados por famílias brasileiras. Em meio à dor do luto, o sistema de saúde nacional lida com um índice persistente de recusa que atinge a média de 45% no país. Esse número, no entanto, não reflete apenas a vontade individual, mas escancara falhas estruturais no acolhimento hospitalar e na comunicação entre equipes médicas e parentes de pacientes.
O papel da comunicação no acolhimento hospitalar
Especialistas apontam que a resistência familiar muitas vezes deriva de uma abordagem inadequada durante o processo de luto. Segundo Cristiano Franke, presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), a falta de preparo das equipes em lidar com conversas críticas é um obstáculo central. O uso de termos excessivamente técnicos ou uma postura percebida como fria e comercial pode gerar desconfiança em um momento de fragilidade extrema.
O desconhecimento sobre a vontade do ente querido em vida, crenças religiosas e o receio quanto à integridade do corpo após a captação são barreiras comuns. Para reverter esse cenário, o diálogo humanizado é apontado como a ferramenta mais eficaz. A explicação detalhada sobre os procedimentos de reconstituição do corpo, que garantem a dignidade necessária para os ritos funerais, é essencial para reduzir o medo e a insegurança das famílias.
Capacitação profissional como estratégia de mudança
Para enfrentar esse gargalo, a AMIB, em parceria com o Ministério da Saúde, intensificou um programa de capacitação voltado a profissionais da linha de frente. Entre setembro de 2025 e agosto de 2026, mais de 2.500 profissionais foram treinados, superando a meta inicial do projeto em 25%. A iniciativa abrange desde médicos intensivistas até psicólogos e assistentes sociais, focando no gerenciamento do processo de doação e na comunicação em situações críticas.
O treinamento não se limita ao diálogo, mas qualifica etapas técnicas fundamentais, como a identificação precisa de potenciais doadores e a manutenção clínica rigorosa. Com a realização de dezenas de cursos em 25 estados, o projeto busca padronizar o atendimento em hospitais públicos e privados, tornando o processo de doação mais seguro e transparente para todos os envolvidos.
Panorama atual dos transplantes no Brasil
Os dados do Registro Brasileiro de Transplantes, da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), revelam a dimensão do desafio. Em 2025, o país registrou quase 16 mil potenciais doadores, mas apenas uma parcela se tornou doadora efetiva. Apesar da resistência, o Brasil tem registrado avanços graduais, alcançando a marca de 20,3 doadores efetivos por milhão de habitantes, um crescimento em relação aos 19,2 registrados no ano anterior.
O sucesso do sistema de transplantes depende diretamente da confiança da sociedade nas instituições. A continuidade de projetos de capacitação e o fortalecimento do debate público sobre o tema são fundamentais para que a doação de órgãos seja vista como um gesto de solidariedade, amparado por protocolos rigorosos e profissionais preparados para oferecer o suporte necessário às famílias.
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Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
