Cúpula do Brics em Nova Delhi enfrenta dilemas geopolíticos e tensões regionais

Cúpula do Brics em Nova Delhi enfrenta dilemas geopolíticos e tensões regionais

Mundo

A Índia sedia, nos dias 12 e 13 de setembro, a Cúpula dos Líderes do Brics em Nova Delhi. O encontro ocorre em um momento de alta tensão geopolítica, marcado pela guerra liderada pelos Estados Unidos contra o Irã, conflito que impõe desafios significativos à coesão do bloco de economias emergentes.

A crise no Oriente Médio, que resultou no fechamento do Estreito de Ormuz e na elevação do preço do petróleo para patamares superiores a US$ 100 o barril, coloca membros do grupo em lados opostos. A divergência entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos, que suspenderam relações comerciais com Teerã em agosto, é o principal obstáculo para a assinatura de uma declaração conjunta entre os países integrantes.

Desafios para a unidade do bloco

O esforço diplomático em Nova Delhi concentra-se em encontrar uma linguagem comum que contemple as sensibilidades de todos os membros. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, reconheceu que as tensões entre Abu Dhabi e Teerã impactam negativamente as negociações, embora mantenha o otimismo quanto a uma solução negociada.

A dificuldade de consenso não é inédita. Em maio, uma reunião ministerial em Nova Delhi terminou sem a emissão de um documento oficial devido a impasses similares. Especialistas, como Michael Kugelman do Atlantic Council, apontam que a expansão recente do bloco, embora demonstre sua relevância, traz consigo visões divergentes que podem comprometer a eficácia operacional da entidade, que historicamente atua baseada no consenso.

Protagonismo chinês e presença global

A cúpula conta com a presença de líderes de peso, incluindo o presidente chinês Xi Jinping, em sua primeira visita à Índia em sete anos. A participação de Pequim, ao lado da anfitriã Índia, é vista como um movimento estratégico para consolidar a coesão do grupo ampliado. Além de Xi, confirmaram presença Vladimir Putin, Masoud Pezeshkian, Cyril Ramaphosa, Abdel Fattah al-Sisi e Prabowo Subianto, além do secretário-geral da ONU, António Guterres.

Apesar das tensões internas, analistas sugerem que o protecionismo e as políticas tarifárias impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, funcionam como um catalisador para a união dos membros. O objetivo é demonstrar que o bloco pode se posicionar de forma coesa contra sanções ocidentais que afetam o crescimento econômico global.

O papel da Arábia Saudita e o futuro do grupo

A posição da Arábia Saudita permanece em um estágio de transição, com o país participando apenas através de delegações de nível inferior, representadas pelo ministro das Relações Exteriores, Faisal bin Farhan Al Saud. A incerteza sobre sua adesão plena reflete a complexidade das alianças regionais que permeiam o Brics atual.

A esperança de um desfecho positivo reside no precedente da Organização de Cooperação de Xangai. Recentemente, seus membros conseguiram formular um texto sobre o conflito iraniano que foi aceito por nações com posições antagônicas, servindo de modelo para as discussões em Nova Delhi. O ex-diplomata indiano Rajiv Bhatia destaca que esse avanço em Bishkek sinaliza que, mesmo sob pressão, o diálogo multilateral ainda possui espaço para resultados práticos.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br