Uma inovação científica desenvolvida pela Universidade Federal do Ceará (UFC) está prestes a transformar o tratamento de queimaduras no Brasil. A utilização da pele de tilápia como curativo biológico, resultado de décadas de pesquisa, avançou para uma nova fase com a formalização de um acordo entre a instituição e uma empresa privada. O objetivo é viabilizar a produção em escala industrial, garantindo que metade do volume fabricado seja incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS), democratizando o acesso à tecnologia.
Produção estratégica no sertão cearense
A estrutura fabris será instalada em Jaguaribara, município localizado no sertão do Ceará. A escolha geográfica não é por acaso: a cidade é a maior produtora de tilápia do estado, beneficiando-se da proximidade com o Açude Castanhão. Essa integração entre a produção de pescado e a biotecnologia médica cria uma cadeia de valor sustentável, transformando o que antes era um subproduto descartado pela indústria alimentícia em um insumo de alto valor clínico.
Embora o impacto econômico direto para o mercado da piscicultura seja considerado moderado por especialistas, como Francisco Medeiros, presidente da Peixe BR, o ganho social é inestimável. O Brasil abate anualmente mais de um bilhão de peixes, e a destinação nobre dessas peles representa um avanço significativo na economia circular e no aproveitamento de recursos biológicos.
Ciência e alívio para pacientes
O coordenador das pesquisas, o professor e doutor Manoel Odorico de Moraes, ressalta que o impacto mais imediato para o paciente é a redução drástica da dor. Estudos clínicos demonstraram que o curativo de pele de tilápia pode diminuir a percepção de dor em mais de 70% quando comparado à sulfadiazina de prata, o padrão ouro utilizado atualmente nos hospitais. Além do efeito analgésico, a tecnologia otimiza a rotina hospitalar: enquanto curativos convencionais exigem trocas frequentes, a pele de tilápia pode permanecer aplicada por até duas semanas, reduzindo custos operacionais e o trauma causado pelo manuseio constante da ferida.
Versatilidade biológica e reconhecimento global
O processo de preparação envolve a retirada das células do tecido, resultando em uma estrutura de colágeno extremamente resistente e biocompatível. Essa característica abre portas para 48 aplicações distintas na medicina humana, veterinária e odontologia. Atualmente, o material já é estudado para uso em neurocirurgias, tratamento de tendões e lesões de córnea, demonstrando uma capacidade superior de acelerar a cicatrização e prevenir infecções.
A eficácia do método ganhou projeção internacional após um caso emblemático na Califórnia, onde uma veterinária utilizou o curativo para tratar um urso vítima de incêndios florestais. O animal, que não aceitava outros tratamentos, apresentou melhora expressiva com a pele de tilápia. O episódio, amplamente divulgado pela imprensa americana, colocou a pesquisa cearense no radar global, validando décadas de trabalho científico realizado na UFC.
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Fonte: canalrural.com.br
