As normas sociais exercem um peso significativo sobre a vida das mulheres, moldando suas experiências e oportunidades de maneira profunda e, muitas vezes, negativa. Essa reflexão foi central na palestra da professora Siwan Anderson, da University of British Columbia, durante o 7º Encontro da Sociedade de Economia da Família e do Gênero (GeFam), realizado de 9 a 11 de setembro na Universidad de la República, em Montevidéu. O evento, que reuniu acadêmicos e profissionais da área, abordou as desigualdades de gênero e as dinâmicas familiares, destacando a necessidade de um olhar crítico sobre as normas que perpetuam a discriminação.
Normas de gênero e suas consequências
A professora Anderson iniciou sua palestra enfatizando que as normas de gênero discriminatórias têm raízes profundas em diversas culturas e sociedades ao longo da história. Essas normas não apenas promovem a inferiorização das mulheres, mas também resultam em consequências trágicas, como a violência de gênero. A violência pode se manifestar de várias formas, desde a mutilação genital até a violência doméstica, e, em contextos de guerra, as mulheres frequentemente se tornam alvos de ataques sistemáticos.
Um aspecto alarmante mencionado por Anderson é o fenômeno das “mulheres desaparecidas”, que se refere a mulheres que não chegam a nascer devido a abortos seletivos, ou que desaparecem devido à violência e discriminação. Dados indicam que cerca de 1,5 milhão de mulheres entre 30 e 60 anos são consideradas “desaparecidas” anualmente, com uma parcela significativa dessas mortes atribuídas à condição de não estarem casadas, especialmente em regiões como a Índia, onde as viúvas enfrentam estigmas sociais severos.
O papel da cultura nas normas de gênero
Para entender melhor como as normas de gênero se formam e se perpetuam, Anderson utilizou a base de dados “Folklore Data”, que compila mitos e lendas de diferentes culturas. Essas narrativas servem como proxies para entender as crenças e normas culturais que influenciam a vida das mulheres. A pesquisa revelou que algumas práticas prejudiciais, como a mutilação genital, são frequentemente perpetuadas por mulheres, refletindo a internalização de normas opressivas.
Embora haja avanços significativos na redução de algumas dessas práticas e na transformação das normas de gênero, especialmente na América Latina, as desigualdades persistem. Questões como a segregação ocupacional, a violência contra a mulher e a desigualdade no mercado de trabalho ainda exigem atenção e políticas públicas eficazes.
A importância de encontros acadêmicos
O encontro do GeFam não apenas promoveu a troca de conhecimento, mas também ajudou a criar uma rede de contatos entre profissionais e acadêmicos que compartilham o objetivo de entender e combater as desigualdades de gênero. O evento incluiu um pré-evento de mentoria para alunos de graduação e pós-graduação, destacando a importância de preparar a próxima geração de pesquisadores e ativistas.
A interação entre diferentes culturas e instituições também foi um ponto alto do encontro, permitindo que os participantes ampliassem suas perspectivas e abordagens para a pesquisa em gênero. A experiência de conhecer novas universidades e realidades sociais enriqueceu o debate e a reflexão sobre as normas de gênero e suas consequências.
O futuro das políticas de gênero
À medida que o debate sobre as desigualdades de gênero avança, é crucial que novas pesquisas e encontros como o do GeFam continuem a informar políticas públicas que visem a redução dessas disparidades. A luta pela igualdade de gênero é um esforço contínuo que requer comprometimento e ação em múltiplas frentes.
A felicidade e o empoderamento das mulheres podem se manifestar em pequenas vitórias, como o brilho nos olhos dos alunos que participaram do evento, simbolizando a esperança de um futuro mais igualitário. Que venham novos encontros e novas pesquisas, pois a transformação das normas sociais é um passo fundamental para garantir um mundo mais justo para todos.
Fonte: redir.folha.com.br
