O mercado de bebidas adaptógenas tem se expandido rapidamente, oferecendo uma alternativa ao consumo de álcool para aqueles que buscam relaxar sem os efeitos colaterais das bebidas alcoólicas. Essas bebidas, que combinam ervas, raízes e fungos, prometem benefícios como redução do estresse, aumento da energia e melhora do foco. Com um crescimento projetado de US$ 1,6 bilhão em 2023 para US$ 2,7 bilhões até 2030, segundo a consultoria Grand View Research, o setor tem atraído a atenção de consumidores e investidores.
Esse crescimento reflete uma mudança significativa no comportamento da população. No Brasil, a taxa de abstinência aumentou de 55% em 2023 para 64% em 2025, conforme o Panorama 2025 do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa). Além disso, um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou que a proporção de brasileiros que consomem álcool caiu de 47,7% em 2012 para 42,5% em 2023, especialmente entre jovens adultos. Isso indica que mais pessoas estão buscando alternativas que permitam socializar sem o consumo de bebidas alcoólicas.
A ciência além da promessa
O conceito de adaptógeno foi introduzido em 1947 pelo cientista soviético Nikolai Lazarev, que investigava substâncias que aumentam a resistência do organismo ao estresse. Ingredientes como ginseng e ashwagandha foram agrupados sob essa categoria ao longo dos anos. No entanto, a inovação não está nos ingredientes, mas na maneira como são comercializados.
Bebidas como chás e kombuchas já utilizavam esses compostos muito antes do surgimento das bebidas adaptógenas. Um exemplo é a Slow Cow, que em 2008 lançou um “anti-energético” com L-teanina. Apesar de sua tentativa de entrar no mercado brasileiro, a marca não obteve sucesso. Atualmente, a Lucia se destaca com uma bebida sem álcool que combina ingredientes como cupuaçu e valeriana, almejando um faturamento de R$ 10 milhões em um ano.
Uma relativização necessária
O pesquisador Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), alerta que não há evidências suficientes sobre a eficácia e segurança das bebidas adaptógenas. Embora alguns ingredientes tenham respaldo científico, a combinação deles pode gerar respostas diferentes do que se observa em estudos isolados. Comparar os efeitos dessas bebidas com os do álcool é, portanto, problemático.
O estresse que cabe no rótulo
O estresse é a palavra-chave na promoção dessas bebidas. No entanto, é essencial esclarecer que existem diferentes tipos de estresse: mental, físico e biológico. Gualano destaca que a confusão aumenta quando o hormônio cortisol entra em cena, frequentemente visto como um vilão. O exercício físico, por exemplo, eleva temporariamente os níveis de cortisol, mas é benéfico a longo prazo.
O efeito imediato que demora semanas
Outro ponto a considerar é que muitos estudos sobre adaptógenos indicam que os benefícios aparecem após um consumo contínuo por semanas, enquanto o marketing das bebidas promete efeitos imediatos. Essa diferença de tempo pode gerar frustração nos consumidores que esperam resultados instantâneos.
Além disso, Gualano menciona o efeito placebo, que pode influenciar a percepção dos consumidores. Aqueles que optam por essas bebidas frequentemente já têm expectativas positivas sobre os efeitos, o que pode levar a uma sensação de relaxamento, mesmo que não haja uma base científica sólida para isso.
Uma dose de placebo com gelo, por favor
De acordo com Renato M. Rodrigues, pesquisador em efeito placebo, a interação com a marca e o ritual de consumo criam um estado antecipatório que pode contribuir para a resposta terapêutica. O ato de abrir uma garrafa e participar de um ritual social pode proporcionar uma sensação de bem-estar, mesmo sem o consumo de álcool.
Em suma, o mercado de bebidas adaptógenas está em ascensão, mas é crucial que os consumidores estejam cientes das limitações científicas por trás dessas promessas. A busca por alternativas ao álcool é válida, mas deve ser acompanhada de um olhar crítico e informado.
Fonte: seudinheiro.com
