O cenário político brasileiro atravessa um momento de intensa reavaliação após o fechamento das urnas no primeiro turno das eleições de 2026. Com o presidente Lula (PT) terminando a etapa inicial da disputa atrás de Flávio Bolsonaro (PL), o clima nos bastidores do Partido dos Trabalhadores e entre aliados mudou drasticamente. O desconforto, antes contido, deu lugar a críticas abertas sobre a estratégia de campanha, com foco especial no papel desempenhado pela primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, a Janja.
O debate sobre a exposição da primeira-dama na campanha
A atuação de Janja, que teve protagonismo em diversos atos de campanha, tornou-se o centro de um debate interno sobre os rumos da disputa eleitoral. Em reuniões tensas realizadas após a apuração, aliados do presidente apontaram que o excesso de exposição da primeira-dama pode ter contribuído para o distanciamento de parte do eleitorado. O tom das críticas reflete uma busca urgente por ajustes na estratégia para o segundo turno, visando reverter a desvantagem nas urnas.
Um dos momentos mais emblemáticos desse descontentamento ocorreu na terça-feira (6), quando a ex-senadora Kátia Abreu, recém-filiada ao PT, defendeu publicamente a necessidade de uma mudança de rumo. Durante uma reunião, ela foi aplaudida ao sugerir “menos Janja e mais Alckmin”. A fala da ex-senadora aponta para a percepção de que o vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), deveria atuar como uma figura central para transmitir maior segurança ao mercado e ao eleitorado moderado, especialmente no que tange à responsabilidade fiscal.
Tensões internas e o papel de Geraldo Alckmin
Além da questão envolvendo a primeira-dama, o debate interno tocou em pontos sensíveis sobre a estrutura da campanha e a concentração de poder. Kátia Abreu também criticou a influência predominante do PT de São Paulo, tanto na condução da estratégia eleitoral quanto na ocupação de espaços na Esplanada dos Ministérios. A avaliação é que essa centralização teria limitado a capacidade de diálogo com outros setores da sociedade.
Embora muitos parlamentares tenham evitado citar o nome de Janja diretamente, as críticas foram claras. Referências a “louvores evangélicos” e ao estilo de condução dos atos de campanha foram interpretadas como recados diretos à primeira-dama. A necessidade de “romper a bolha” que cerca o presidente foi um dos pontos mais debatidos, com aliados reforçando que Lula precisa retomar o contato direto com a base popular, estratégia que marcou sua trajetória política.
Repercussões e o impacto nos estados
A análise do desempenho eleitoral também passou por um recorte regional. Aliados do presidente manifestaram preocupação com o resultado em Minas Gerais, estado onde Lula havia superado Jair Bolsonaro em 2022. Parte da base aliada atribui a perda de fôlego no estado a episódios específicos, como o momento em que a primeira-dama xingou o deputado Nikolas Ferreira (PL) durante um comício. O episódio é visto por setores do partido como um fator que pode ter gerado desgaste desnecessário em um colégio eleitoral decisivo.
Até o momento, a equipe de Janja não se manifestou sobre as críticas. Em contato com o jornal O Globo, a assessoria da primeira-dama informou que ela pretende manter sua participação na campanha, contando com o respaldo do presidente. O cenário permanece em aberto, enquanto o PT tenta recalibrar sua comunicação para o embate final.
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Fonte: redir.folha.com.br

