O mercado brasileiro de trigo atravessa um momento de cautela e baixa liquidez. Com a entrada gradual da nova safra e a forte concorrência do cereal argentino, os preços do grão registraram recuo, pressionando as margens dos produtores e alterando a dinâmica de negociação entre moinhos e fornecedores. O cenário é agravado pelas incertezas climáticas no Rio Grande do Sul, onde o excesso de umidade tem gerado preocupações sobre a qualidade final do produto colhido.
Segundo Thiago Oleto, analista da Safras & Mercado, o impasse atual é reflexo da divergência entre as expectativas de valor dos vendedores e a postura seletiva dos compradores. Enquanto os moinhos buscam preços mais competitivos, os produtores tentam sustentar patamares mais elevados, dificultando o fechamento de contratos em diversas regiões produtoras.
Impacto da concorrência externa no mercado interno
A presença do trigo argentino no mercado brasileiro atua como um limitador para a valorização do produto nacional. As indicações para o cereal importado, com valores próximos a US$ 304 por tonelada em Rio Grande e US$ 310 em Canoas, estabelecem um teto para as negociações locais. Considerando o câmbio de R$ 5,02, a paridade de importação torna o trigo estrangeiro uma alternativa financeiramente atrativa para a indústria, reduzindo o interesse dos moinhos em pagar valores mais altos pelo grão da safra velha.
No Paraná, as cotações refletem essa pressão. As indicações de compra giram em torno de R$ 1.500 por tonelada, enquanto os vendedores ainda tentam negociar na casa dos R$ 1.550. Para a safra nova, o mercado tem registrado negócios pontuais entre R$ 1.380 e R$ 1.400, variando conforme a qualidade e as características específicas de cada lote.
Desafios climáticos e qualidade da produção gaúcha
O Rio Grande do Sul, um dos principais polos produtores do país, enfrenta um ciclo desafiador. De acordo com dados da Emater, a colheita atingiu 4% da área plantada, mas a sequência de chuvas, a baixa luminosidade e a umidade elevada têm prejudicado o desenvolvimento das lavouras. Episódios de granizo e ventos fortes causaram danos físicos, incluindo o acamamento das plantas e a debulha de espigas.
Além da redução no volume, a preocupação central da indústria reside na qualidade do grão. Fatores como o peso hectolitro (PH) e a atividade enzimática, que pode ser alterada pela germinação precoce, são monitorados de perto pelos moinhos. A Abitrigo estima que as importações brasileiras possam chegar a 9 milhões de toneladas neste ciclo, superando a projeção inicial de 7,5 milhões, o que evidencia a necessidade de suprir a demanda interna com grãos de padrão superior.
Perspectivas para o setor tritícola
A Conab projetou para o Rio Grande do Sul uma produção de 2,2 milhões de toneladas em 2026, uma queda expressiva de 36,8% em relação à temporada anterior. Com a colheita ainda em estágio inicial, o mercado aguarda a entrada de um volume maior de grãos para definir as referências de preço e avaliar a real disponibilidade de produto que atenda às exigências industriais.
A tendência é que a qualidade continue sendo o fiel da balança nas próximas semanas. Caso a oferta de trigo com os parâmetros técnicos exigidos pelos moinhos seja insuficiente, a pressão sobre as cotações pode se intensificar. O ConexRS segue acompanhando de perto os desdobramentos da colheita e os impactos das variáveis econômicas no agronegócio brasileiro, trazendo sempre uma análise contextualizada para o seu dia a dia. Continue conosco para se manter informado sobre as movimentações que impactam o campo e a economia nacional.
Fonte: portaldoagronegocio.com.br

