A representatividade feminina no Congresso Nacional avançou nas eleições de 2026, mas o ritmo de crescimento ainda revela um desafio estrutural para a democracia brasileira. Com o aumento de 91 para 109 cadeiras na Câmara dos Deputados, a presença de mulheres na Casa subiu de 17,7% para 21,2%. Embora o salto de 20% no número absoluto seja um marco, a análise dos dados aponta que, mantida a velocidade atual, a paridade de gênero no Parlamento brasileiro só deve ser alcançada por volta de 2060.
A barreira dos números e a taxa de sucesso
Para compreender por que a sub-representação persiste, é preciso observar a taxa de sucesso — o índice que mede quantos candidatos conseguem, de fato, converter candidaturas em mandatos. Em 2014, a disparidade era abismal: a taxa de sucesso masculina era quatro vezes superior à feminina. Em 2026, esse cenário apresentou melhora, com as mulheres atingindo 4% de êxito, enquanto os homens registraram 8%.
Um dado revelador, contudo, surge entre as parlamentares que tentam a reeleição. Nesse grupo, a taxa de sucesso das mulheres foi de 81%, superando os 70% dos homens. Esse indicador sugere que, uma vez dentro do sistema e com acesso aos mecanismos de poder, as mulheres demonstram alta capacidade de negociação e gestão de recursos para manter seus assentos.
O papel decisivo das legendas partidárias
A desigualdade não é uniforme e varia drasticamente conforme a orientação ideológica e a estratégia de cada partido. A distribuição de recursos financeiros e o apoio das lideranças partidárias são fatores determinantes para o sucesso nas urnas. Enquanto partidos como o PT apresentam taxas de sucesso próximas entre homens e mulheres, outras legendas mantêm abismos significativos.
No Partido Liberal (PL), por exemplo, a taxa de sucesso dos homens foi 2,4 vezes maior que a das mulheres, mesmo com a legenda tendo eleito 22 deputadas federais. Essa discrepância reflete como a cultura interna das siglas e a priorização de investimentos em campanhas masculinas ainda funcionam como um filtro que limita a entrada de novas vozes femininas no Legislativo.
Desafios nas esferas estaduais
O cenário de disparidade se repete nas assembleias estaduais, onde a taxa de sucesso dos homens (11%) continua sendo mais que o dobro da registrada pelas mulheres (5%). O padrão de clivagem partidária observado na Câmara também se replica nos estados: enquanto o PSOL registrou um índice de sucesso feminino três vezes superior ao masculino, siglas como PP, União e Podemos mantiveram uma vantagem masculina de três a quatro vezes maior.
A persistência desse quadro reforça que o problema não é a falta de candidatas, mas sim as barreiras estruturais que impedem a competitividade feminina em pé de igualdade. O debate sobre a ocupação dos espaços de poder permanece central para o futuro do país, exigindo um olhar atento sobre como os partidos gerem suas verbas e como o eleitorado processa a figura da mulher na política.
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Fonte: redir.folha.com.br

