A relação entre o mercado financeiro e o jornalismo digital ganhou um novo e controverso capítulo após revelações baseadas em mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro e figura central do Banco Master. Documentos obtidos durante as investigações indicam que a direção do portal Metrópoles submetia reportagens à aprovação do empresário antes da publicação, além de aceitar sugestões de edição e pautas que pudessem beneficiar seus interesses corporativos.
A dinâmica entre o banco e o portal de notícias
O levantamento realizado pelo UOL aponta que, entre 2024 e 2025, pelo menos 14 textos foram enviados previamente a Vorcaro. Deste total, 11 sofreram alterações diretas após solicitações do ex-banqueiro. A interação, que incluía até a sugestão de matérias encomendadas, coincidiu com o estabelecimento de um contrato publicitário de R$ 20 milhões entre o Banco Master e o portal de notícias, consolidando uma linha direta entre Vorcaro e a CEO do Metrópoles, Lilian Tahan.
As mensagens revelam um fluxo constante de comunicação. Em um dos episódios, Tahan enviou um perfil sobre o empresário com a mensagem: “Se tiver alguma incorreção, me avise!! Não publicarei sem nos falarmos”. Em outro momento, após o ex-banqueiro reclamar de uma notícia sobre uma suposta oferta de compra de ativos do Master, a diretora respondeu prontamente: “Tiramos”.
Contrato milionário e influência editorial
A aproximação entre as partes teve início em maio de 2024, após um encontro intermediado por Guilherme Barros, então consultor de Vorcaro. Pouco tempo depois, o portal passou a receber aportes financeiros significativos do grupo. Em novembro de 2024, o valor do contrato foi fixado em R$ 20 milhões, montante que foi quitado ao longo de 2025 em parcelas de R$ 5 milhões. Em diálogos internos, o próprio Vorcaro chegou a classificar o portal como a “coisa mais importante da nossa vida”.
O conteúdo editorial também foi alvo de intervenções em temas sensíveis, como a análise da compra do Banco Master pelo BRB, operação que enfrentou resistência técnica dentro do Banco Central. Reportagens sobre Renato Gomes, diretor do BC responsável pela análise do caso, foram enviadas a Vorcaro, que solicitou a remoção de menções à falência do banco e a inclusão de especulações sobre a carreira futura do diretor, pedidos que foram atendidos pela direção do portal.
Posicionamento da direção do Metrópoles
Questionada sobre as evidências, Lilian Tahan afirmou que o envio de textos para checagem com fontes é uma prática comum adotada com personalidades do empresariado, da política e do Judiciário. A CEO negou qualquer vínculo entre o contrato publicitário e a linha editorial do veículo. “Basta ver a quantidade de matérias publicadas pelo Metrópoles expondo a situação das empresas de Vorcaro, tais como Banco Master, Ambipar, Fictor, Oncoclínicas, dentre outras”, defendeu-se Tahan.
O caso levanta debates importantes sobre a independência jornalística e a ética na relação entre grandes veículos de comunicação e anunciantes de peso. A transparência no trato com a informação e a separação entre departamentos comerciais e editoriais permanecem como pilares fundamentais para a credibilidade de qualquer organização de imprensa. O ConexRS segue acompanhando os desdobramentos desta investigação e os impactos das revelações no cenário corporativo e midiático brasileiro, reafirmando seu compromisso com a apuração rigorosa e o jornalismo de qualidade.
Fonte: redir.folha.com.br

