A rotina em uma pequena distribuidora de água no bairro de Boa Viagem, na capital pernambucana, contrasta com os cenários eleitorais tradicionais da região. Quando questionados sobre preferências para a disputa presidencial, entregadores que descansavam à entrada do estabelecimento negaram simpatia por nomes associados à direita. No entanto, do interior da loja, o proprietário do negócio manifestou apoio explícito à figura de Flávio Bolsonaro, justificando sua escolha primordialmente pela ligação familiar com o ex-presidente Jair Bolsonaro.
José Pedro Santana, de 66 anos, comanda o comércio de galões de água em um espaço que também serve de moradia há uma década. Natural de João Alfredo, município do agreste pernambucano, ele reside no Recife desde 1983. Sua trajetória eleitoral, contudo, passou por transformações profundas ao longo das décadas, refletindo mudanças de percepção política comuns a muitos brasileiros de sua geração que acompanharam a redemocratização e a alternância de poder no país.
Trajetória política e visão sobre o desenvolvimento
A memória política de Santana remonta ao ano de 1986, período em que votou em Miguel Arraes, então filiado ao PMDB, para o governo estadual. Conforme relata o próprio comerciante, aquela foi a última oportunidade em que depositou seu voto em um representante da esquerda, período em que avaliava a política com menor maturidade cívica. Com o passar dos anos, o alinhamento ideológico mudou de direção, consolidando uma oposição firme a governos progressistas e uma aproximação com discursos conservadores.
Apesar de reconhecer avanços socioeconômicos estruturais no Brasil desde a década de 1980 — como a ampliação de oportunidades de consumo e a redução da extrema pobreza —, o comerciante faz ressalvas sobre o cenário atual. Enquanto aponta melhorias gerais na infraestrutura e no acesso a serviços, ele demonstra preocupação com a presença de pessoas em situação de vulnerabilidade nas ruas, contrastando sua percepção do mercado de trabalho em diferentes administrações federais.
Críticas aos programas sociais e debate econômico
Um dos pontos centrais do discurso de Santana envolve a gestão de recursos públicos voltados para a assistência social. O comerciante relata ter sido beneficiário do auxílio emergencial durante o período mais crítico da pandemia de Covid-19, medida implementada pela gestão anterior. Ao mesmo tempo, expressa insatisfação com os valores pagos atualmente pelo programa Bolsa Família, argumentando que a quantia repassada às famílias em situação de vulnerabilidade é insuficiente para cobrir o custo de vida nas grandes cidades.
Durante a avaliação das políticas de transferência de renda no país, o empresário também creditou a origem dos programas assistenciais ao período do governo de Fernando Henrique Cardoso, embora destaque que os reajustes expressivos nos valores ocorreram em momentos posteriores da história recente. O debate sobre a eficácia e o impacto fiscal dessas políticas continua a polarizar o eleitorado, refletindo-se diretamente nas conversas cotidianas de pequenos comerciantes e trabalhadores em capitais do Nordeste.
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Fonte: redir.folha.com.br

