Mercado debate balanço do Bradesco e questiona ritmo do crédito diante da inadimplência

Mercado debate balanço do Bradesco e questiona ritmo do crédito diante da inadimplência

Economia

A discussão sobre a qualidade dos empréstimos e a sustentabilidade do crescimento ganhou força no setor financeiro após a divulgação do balanço trimestral. Enquanto a cúpula do banco defende que a instituição adotou medidas preventivas para blindar suas operações, analistas de grandes instituições mantêm cautela em relação aos próximos meses e ao impacto sobre os lucros.

O cenário econômico mais restritivo impõe desafios adicionais para o avanço das carteiras e para o controle dos atrasos. Diante desse quadro, executivos e especialistas divergem sobre a velocidade com que a instituição conseguirá atravessar o atual ciclo sem comprometer suas metas de rentabilidade.

Estratégia de garantias e perfil da carteira

Para mitigar riscos, a gestão liderada por Marcelo Noronha tem concentrado esforços em ampliar a parcela de empréstimos respaldados por garantias reais. Essa mudança estrutural busca oferecer maior proteção contra oscilações na renda das famílias e na saúde financeira das empresas, reduzindo perdas potenciais em caso de calote.

A carteira de crédito avançou 11,1% em 12 meses, alcançando a marca expressiva de R$ 1,15 trilhão. No entanto, o avanço ocorreu de forma desigual entre os segmentos, com maior dinamismo no atendimento corporativo, enquanto o crédito voltado para pessoas físicas continuou a refletir pressões ligadas ao nível de endividamento e aos patamares de juros vigentes na economia.

Apesar da maior seletividade, os atrasos superiores a 90 dias no segmento de varejo atingiram 5,8% no período avaliado. A administração reconhece que o ambiente macroeconômico atual restringe margens de manobra mais amplas, mas reforça que a composição atual dos ativos é consideravelmente mais segura do que em anos anteriores.

Visões divergentes entre analistas financeiros

A recepção dos resultados dividiu opiniões no mercado financeiro brasileiro. Instituições como o BTG Pactual optaram por manter uma recomendação neutra, apontando que a desaceleração na concessão e a necessidade de maiores provisões para perdas podem limitar a expansão dos lucros futuros e criar um desafio relevante para o próximo exercício.

Na mesma linha, o Itaú BBA destacou que, embora os números tenham ficado em linha com as expectativas gerais — registrando lucro recorrente de R$ 7,1 bilhões e retorno sobre o patrimônio líquido de 15,6% —, a composição das receitas apresentou sinais de fragilidade decorrentes do avanço nas provisões.

Por outro lado, casas de análise como o Safra enxergaram pontos positivos na execução da estratégia e mantiveram recomendação de compra para os papéis. A avaliação otimista baseia-se na premissa de que a instituição pode estar superando os gargalos de crédito de forma mais ágil do que grande parte do mercado antecipava inicialmente.

No pregão em curso, as movimentações refletiram o clima de incerteza, com os ativos negociados sob volatilidade e variação negativa durante as primeiras horas de negociação na bolsa de valores.