Alta do dólar e cenário fiscal colocam o futuro da taxa Selic em dúvida

Alta do dólar e cenário fiscal colocam o futuro da taxa Selic em dúvida

Economia

Os juros em patamares elevados continuam apertando o orçamento das famílias, dificultando a operação das empresas e esfriando a economia brasileira. No entanto, para quem esperava um alívio iminente na Taxa Selic, a disparada recente do dólar após o período eleitoral pode ter criado um obstáculo considerável no horizonte da política monetária.

Na avaliação do economista Luis Otavio Leal, a reação do mercado financeiro à vitória de Luiz Inácio Lula da Silva deve fazer o Banco Central interromper o ciclo de cortes já na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Para o mês de dezembro, a possibilidade de uma redução na taxa básica de juros dependerá fundamentalmente dos sinais que o governo emitirá sobre o controle das contas públicas.

A economia pede alívio, mas o dólar atrapalha

O grande dilema enfrentado pelo Banco Central reside no fato de existirem argumentos tanto para baixar quanto para manter os juros em patamares contracionistas. De um lado, a política monetária atual já exerce forte pressão sobre os consumidores e o setor corporativo, com destaque para o endividamento das famílias, o comprometimento da renda, o avanço da inadimplência e o aumento nos pedidos de recuperação judicial.

A atividade econômica também apresenta sinais de desaceleração acima do esperado inicialmente pelos analistas. Segundo Luis Otavio Leal, os indicadores recentes do setor varejista apontam para uma possível queda entre 0,1% e 0,2% no Produto Interno Bruto (PIB) durante o terceiro trimestre. Esse enfraquecimento, em tese, dificultaria o repasse de preços pelas empresas, favorecendo o controle inflacionário.

Por outro lado, o comportamento do câmbio atua na direção contrária. A valorização da moeda americana encarece os produtos importados e os insumos industriais utilizados no país, gerando uma nova camada de pressão sobre os índices de inflação. Para o economista, mesmo após uma eventual acomodação inicial, o dólar tende a permanecer em patamares elevados, impulsionado também por saídas tradicionais de recursos no final do ano.

O que Lula precisa sinalizar para destravar os cortes?

Além da volatilidade cambial, especialistas apontam o risco de desancoragem nas expectativas de inflação para os anos de 2028 e 2029. Quando essas projeções se afastam das metas oficiais, os modelos do Banco Central capturam um cenário mais desafiador, reduzindo o espaço de manobra para novas quedas nos juros básicos.

Nesse contexto, o rumo da Taxa Selic passa a depender diretamente da política fiscal adotada pela nova gestão federal. As medidas discutidas e implementadas entre setembro e outubro elevaram o nível de exigência dos investidores, que agora cobram um ajuste fiscal mais robusto para restabelecer a confiança no equilíbrio das contas públicas.

Até que o governo apresente diretrizes mais claras e firmes nesse sentido, o cenário base para a reunião de dezembro permanece sendo a manutenção dos juros, conforme aponta a autoridade monetária e as projeções atualizadas no Boletim Focus.

Juros altos podem virar parte do problema?

O debate econômico atual também resgatou o conceito de dominância fiscal, situação na qual a elevação dos juros perde eficácia no combate à inflação e passa a alimentar o próprio problema. Isso ocorre quando o encarecimento da dívida pública gera tantas dúvidas sobre a solvência do país que acaba provocando fuga de capitais, valorização cambial e novas pressões inflacionárias.

Apesar de reconhecer a gravidade conceitual do tema, Luis Otavio Leal avalia que o Brasil ainda não se encontra em uma situação de dominância fiscal. Na visão do mercado, a taxa de juros ainda funciona como um instrumento legítimo de ancoragem de preços, embora os agentes econômicos mantenham a cautela diante da velocidade com que o cenário macroeconômico pode se alterar.