Até poucas semanas atrás, o chamado kit Brasil era uma aposta relativamente consensual entre gestores multimercados. O cenário desenhado previa juros em queda, bolsa ganhando fôlego e o dólar perdendo força de forma consistente no horizonte econômico.
No entanto, bastou um único pregão para transformar essa convicção em cautela extrema no ambiente financeiro nacional. Após o resultado das eleições presidenciais, com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o mercado passou por uma reprecificação forte dos ativos locais.
Os números refletem o impacto imediato da instabilidade política sobre os negócios. O Ibovespa tombou 13,9% em um único dia, o dólar avançou cerca de 8% e a curva de juros abriu mais de 250 pontos-base, alterando rapidamente as estratégias de alocação de capital.
Mudança na exposição ao risco
A pesquisa pré-Copom realizada pela XP com 20 gestoras multimercados evidencia a dimensão dessa reviravolta. Os profissionais reduziram de maneira expressiva a exposição ao mercado acionário e ampliaram posições defensivas ligadas à moeda norte-americana.
Em setembro, 70% dos gestores mantinham posições compradas em ações brasileiras, mas esse percentual despencou para 25%. Ao mesmo tempo, as apostas direcionadas à queda da bolsa subiram para 30%, refletindo o pessimismo generalizado.
Por outro lado, o movimento inverso ocorreu no mercado de câmbio. A parcela de gestores que apostava na valorização do real caiu de 75% para 21%, enquanto as posições vendidas na moeda nacional dispararam para 79% diante do cenário de incerteza.
Impacto nas expectativas do Copom
A virada no humor dos investidores também alterou diretamente as projeções para a próxima decisão do Comitê de Política Monetária. Se antes a aposta predominante indicava cortes adicionais na taxa básica de juros, o panorama atual é de estabilidade.
Atualmente, 75% dos gestores acreditam que a taxa Selic permanecerá inalterada na reunião desta quarta-feira (4). Apenas uma fatia minoritária de 25% continua projetando uma redução de 0,25 ponto percentual na pauta do banco central.
Essa retração reflete o temor de pressões inflacionárias persistentes e a necessidade de manter o aperto monetário para ancorar as expectativas macroeconômicas nos próximos meses.
Piora nos indicadores econômicos
O pessimismo corporativo encontrou respaldo nos principais indicadores macroeconômicos monitorados pelo mercado financeiro. A parcela de gestores com visão negativa para a economia brasileira saltou de 55% para 95%.
Nenhuma das instituições consultadas apontou perspectivas positivas para o curto prazo. A projeção oficial para a inflação de 2026 subiu de 4,97% para 5,24%, enquanto a estimativa de crescimento do PIB recuou de 1.78% para 1.68%.
Especialistas ressaltam que o comportamento reflete um ajuste de portfólio para preservação de capital. O foco agora recae sobre os anúncios de nomes para os ministérios econômicos e sobre o novo pacote fiscal do governo para conter o endividamento público. (Entenda melhor aqui)

