Incerteza fiscal e debate sobre a Selic fazem dólar fechar a R$ 5,4872

Incerteza fiscal e debate sobre a Selic fazem dólar fechar a R$ 5,4872

Geral

O dólar à vista fechou esta terça-feira (3) em alta de 0,79%, cotado a R$ 5,4872, após superar a faixa de R$ 5,50 durante a manhã e atingir uma máxima de R$ 5,5157. A movimentação acentuada ocorreu na volta do feriado de Finados, refletindo diretamente o aumento da desconfiança dos agentes do mercado financeiro em relação à disposição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de promover um ajuste fiscal sólido e contínuo.

Além das questões fiscais, o ambiente econômico foi fortemente influenciado pelo debate em torno de propostas destinadas a limitar a taxa Selic. Com os resultados apurados ao término dos negócios, o patamar alcançado representou o maior nível de encerramento desde 30 de dezembro de 2025, evidenciando o estresse cambial recente.

Desempenho expressivo e sequência de altas

O real registrou o segundo pior desempenho entre as divisas globais mais líquidas durante a sessão, ficando atrás apenas das perdas acumuladas pelo peso mexicano. O movimento consolidou o terceiro pregão consecutivo de valorização da moeda americana no mercado doméstico.

Na semana anterior, o dólar acumulou avanço expressivo de 9,04%, marcando a maior alta semanal registrada desde o mês de outubro de 2008. Com o avanço registrado nesta terça-feira, a moeda estrangeira praticamente eliminou as perdas acumuladas frente ao real ao longo do ano, situando-se em -0,03% no acumulado anual.

Visão de analistas e cenário monetário

Para o economista-chefe da Bravonte Capital, Eduardo Velho, a escalada do dólar está diretamente relacionada à ausência de anúncio de medidas concretas de ajuste fiscal e à indefinição em torno de rumos para o Ministério da Fazenda. Ele avalia que cresceram as probabilidades de intervenção direta do Banco Central no mercado de câmbio por meio da venda de moeda à vista.

Essa possível atuação pode ocorrer mesmo caso o Comitê de Política Monetária (Copom) opte por manter a taxa Selic estabilizada em 13,75% ao ano na reunião agendada para esta quarta-feira (4). A percepção de instabilidade na política econômica ganhou tração após declarações divergentes vindas de figuras próximas ao governo.

Debates fiscais e expectativas de mercado

O clima de cautela intensificou-se após relatos de simpatia interna a ideias associadas a André Lara Resende, cuja proposta discutida abrange a redução do ritmo de crescimento da dívida pública mediante cortes agressivos na taxa básica de juros. O economista-chefe de mercados emergentes da Capital Economics, William Jackson, pontuou que a discussão sinaliza uma busca por alternativas ao modelo tradicional de ajuste fiscal.

Por outro lado, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, ponderou que as sugestões apresentadas possuem deficiências e reiterou a inexistência de previsão para um encontro oficial entre Lula e o economista. A deterioração das expectativas também repercutiu nas projeções oficiais para o câmbio e para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Projeções e posicionamento institucional

A estimativa consensual para a cotação do dólar no encerramento deste ano subiu de R$ 5,05 para R$ 5,34, enquanto a projeção voltada para dezembro de 2027 passou de R$ 5,15 para R$ 5,40. Diante do cenário de incerteza, instituições financeiras como XP e Santander ajustaram suas apostas para prever a manutenção da Selic em 13,75%.

Em nota enviada a clientes, a consultoria Hedgepoint destacou que a decisão do Copom acompanhada de um tom firme ajudaria a reforçar o carry trade e a sustentar o real. Para a empresa, a depreciação da moeda brasileira decorre primordialmente de fatores domésticos, não podendo ser explicada exclusivamente pelo avanço internacional do Dollar Index.