A expectativa do setor exportador brasileiro de carne bovina sofreu um revés diplomático e comercial importante. A China comunicou que não autorizará o Brasil a utilizar o excedente da cota de exportação destinada ao Uruguai. A possibilidade de transferência desse volume, que havia sido anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 21 de setembro, dependia inteiramente do aval das autoridades chinesas, que optaram por manter as regras vigentes sem concessões ao governo brasileiro.
Impacto tarifário e restrições comerciais
Com a negativa de Pequim, o cenário previsto desde janeiro de 2026 se concretiza. A China estabeleceu uma cota de 1,1 milhão de toneladas para a carne bovina brasileira. Qualquer volume que ultrapasse esse limite está sujeito a uma tarifa adicional de 55%. Somada à taxa de importação padrão de 12%, a carga tributária total sobre o excedente exportado pelo Brasil atinge agora 67%, tornando a competitividade do produto nacional significativamente menor no mercado asiático.
A decisão de Pequim frustra as tentativas de lobby realizadas pelo governo brasileiro nos últimos meses. O excedente em questão, que o Uruguai não deve utilizar integralmente, gira em torno de 80 mil toneladas, dentro de uma cota total uruguaia de 324 mil toneladas. A recusa chinesa em flexibilizar esse intercâmbio de cotas reforça a postura rígida do país asiático em relação aos seus acordos comerciais bilaterais.
Contexto de mercado e barreiras internacionais
O analista Fernando Henrique Iglesias, da consultoria Safras & Mercado, explica que a estratégia uruguaia de ceder parte de sua cota ao Brasil visava, em parte, compensar a perda de mercado do Brasil na União Europeia. O bloco europeu restringiu a entrada de produtos de origem animal brasileiros devido a impasses técnicos sobre o controle e uso de antimicrobianos na cadeia produtiva nacional. Embora os setores de aves e mel tenham obtido sucesso na reversão dessas restrições, a carne bovina ainda enfrenta desafios de acesso.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) projeta um cenário de retração para o ano de 2026. A estimativa é de que o volume total de exportações de carne bovina do Brasil registre uma queda de 10% em comparação ao ano anterior. Esse recuo é atribuído diretamente à combinação entre as barreiras impostas pela União Europeia e a política tarifária restritiva adotada pela China para o excedente de cota.
Perspectivas para o próximo ciclo
Apesar do cenário adverso, o setor pecuarista mantém o foco no planejamento para 2027. O limite de exportação para a China passará por uma atualização, sendo levemente ampliado para 1,128 milhão de toneladas. Até lá, a indústria brasileira precisará lidar com a pressão dos custos tarifários elevados e buscar alternativas para manter a rentabilidade em um dos seus principais mercados compradores.
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Fonte: canalrural.com.br
