
Embora o Brasil possua uma das maiores produções acadêmicas sobre desigualdade racial no mundo, especialistas apontam que o país ainda carece de mecanismos eficientes para mensurar, de forma precisa, os impactos econômicos, sociais e institucionais do racismo. A avaliação ganhou força com o lançamento do núcleo Dara – Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo, iniciativa formada majoritariamente por pesquisadores negros que pretende reunir estudos, indicadores e análises capazes de orientar políticas públicas baseadas em evidências.
Segundo os pesquisadores, a ausência de indicadores mais consistentes dificulta compreender como o racismo influencia áreas como educação, mercado de trabalho, renda, saúde, segurança pública e acesso à Justiça. Embora estatísticas mostrem diferenças entre grupos raciais, ainda há limitações para identificar quais fatores estão diretamente relacionados à discriminação e quais políticas apresentam resultados concretos no enfrentamento dessas desigualdades.
A proposta do Dara é justamente preencher essa lacuna. O grupo pretende produzir pesquisas independentes, disponibilizar bancos de dados acessíveis e acompanhar a efetividade de programas voltados à promoção da igualdade racial. Para os especialistas envolvidos, medir corretamente os efeitos do racismo permite direcionar investimentos públicos, aperfeiçoar ações governamentais e ampliar a transparência sobre os resultados das iniciativas implementadas em diferentes regiões do país.
O debate também alcança o setor privado. Empresas têm sido cada vez mais cobradas por investidores, consumidores e parceiros comerciais a adotar políticas de diversidade, inclusão e governança (ESG). Entretanto, especialistas ressaltam que essas iniciativas precisam ser acompanhadas por indicadores confiáveis, capazes de demonstrar avanços concretos em contratação, promoção profissional, remuneração, permanência de colaboradores e representatividade em cargos de liderança.
A produção de dados qualificados também pode contribuir para o desenvolvimento econômico. Organizações internacionais e instituições de pesquisa apontam que sociedades mais inclusivas tendem a ampliar produtividade, inovação e competitividade, reduzindo desigualdades históricas que limitam o potencial de parte significativa da população. Nesse contexto, conhecer melhor os impactos do racismo deixa de ser apenas uma questão social e passa a integrar estratégias de desenvolvimento sustentável.
Para pesquisadores envolvidos na iniciativa, o desafio brasileiro não está apenas em reconhecer a existência das desigualdades raciais, mas em construir métricas que permitam avaliar continuamente sua evolução e a eficácia das políticas adotadas. O objetivo é transformar informações dispersas em conhecimento capaz de orientar decisões públicas e privadas, fortalecendo ações de combate à discriminação e promoção da igualdade de oportunidades.
