A filosofia de gestão que desafiou o status quo
O mundo corporativo brasileiro perdeu, na última terça-feira, uma de suas figuras mais provocativas e influentes. Oscar Motomura, fundador da Amana-Key e do renomado Programa de Gestão Avançada (APG), faleceu aos 82 anos, deixando um rastro de transformações que atravessou gerações de executivos, educadores e líderes do setor público. Mais do que um consultor, Motomura consolidou-se como um mentor que não entregava respostas prontas, mas que, através de questionamentos incisivos, forçava o indivíduo a confrontar suas próprias convicções.
Sua atuação foi marcada pela criação de conceitos que se tornaram pilares para quem busca uma liderança consciente. Entre eles, destaca-se a figura do “desturbador”: aquele profissional que, longe de buscar conflitos gratuitos, atua como um agente de mudança ao apontar premissas invisíveis e desafiar o conforto das decisões automáticas. Para Motomura, a evolução organizacional dependia diretamente da capacidade de questionar o que parecia imutável.
O conceito de VZero e a serenidade na tomada de decisão
Em um cenário de negócios cada vez mais acelerado, onde a urgência muitas vezes dita o ritmo das empresas, Motomura introduziu o conceito de VZero, ou velocidade interna zero. Longe de representar passividade ou lentidão, o VZero é a capacidade de manter o centramento e a serenidade mesmo em momentos de crise aguda. O mestre argumentava que líderes que agem “fora de si”, movidos pela ansiedade ou pelo medo, tendem a agravar os problemas que deveriam solucionar.
Essa busca pelo equilíbrio interno era, para ele, o diferencial necessário para enxergar a “realidade real”. Em suas consultorias, ele frequentemente alertava sobre os filtros hierárquicos que impedem os tomadores de decisão de compreenderem o que ocorre na base da operação. Ao romper essas barreiras, o líder ganha a clareza necessária para distinguir o que é uma limitação factual do que é apenas um medo institucionalizado.
Ética e a viabilização do impossível
A visão de Motomura sobre ética transcendia o simples cumprimento de normas ou o compliance. Para ele, a pergunta fundamental não era apenas se uma ação era permitida, mas se ela deveria ser feita e a serviço de quem. Essa postura ética foi o que o levou a promover debates profundos no Brasil, trazendo pensadores como o filósofo Michael Sandel para discutir os limites da moralidade no mercado.
Essa base ética sustentava sua crença nas “equações impossíveis”. Segundo Motomura, o papel do verdadeiro líder é justamente viabilizar o que ainda não foi concretizado. Ele defendia que, ao separar as limitações reais das fabricadas pela cultura organizacional, é possível aplicar uma criatividade radical para resolver problemas complexos. O trabalho de Amana-Key tornou-se, assim, um laboratório de inteligência coletiva voltado para a superação de desafios que a gestão convencional considerava insolúveis.
O futuro da liderança após a era do conhecimento
Mesmo em seus últimos projetos, Motomura mantinha o olhar voltado para o horizonte. Ele questionava o que restaria aos líderes humanos em uma era dominada pela inteligência artificial e pela abundância de dados. Sua conclusão apontava para a necessidade de desenvolver a sabedoria, o julgamento crítico e a responsabilidade, competências que as máquinas, por mais avançadas que sejam, não podem replicar.
O legado de Oscar Motomura permanece vivo não apenas nos manuais de gestão, mas na prática diária de líderes que escolhem a serenidade em meio ao caos e a ética em detrimento da conveniência. O Conexrs segue acompanhando as trajetórias que moldam o pensamento estratégico no país, mantendo o compromisso com uma análise profunda e contextualizada dos fatos que definem o nosso tempo.
Fonte: braziljournal.com
